{"id":2862,"date":"2021-08-23T18:53:02","date_gmt":"2021-08-23T21:53:02","guid":{"rendered":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/?p=2862"},"modified":"2022-06-18T22:54:54","modified_gmt":"2022-06-19T01:54:54","slug":"uma-estrategia-para-desprivatizar-o-sus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/uma-estrategia-para-desprivatizar-o-sus\/","title":{"rendered":"Uma estrat\u00e9gia para desprivatizar o SUS"},"content":{"rendered":"\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>D\u00e9cadas de estrangulamento financeiro abriram, na Sa\u00fade P\u00fablica, brechas crescentes para terceiriza\u00e7\u00e3o, descoordena\u00e7\u00e3o e precariza\u00e7\u00e3o. Processos corroem atendimento p\u00fablico e rela\u00e7\u00e3o com profissionais. Ser\u00e1 preciso enfrent\u00e1-los. Leia abaixo a entrevista concedida de Adriano Massuado e Jos\u00e9 Gomes Tempor\u00e3o ao jornalista Antonio Martins.<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Que nenhum dos problemas do SUS ser\u00e1 sanado, sem multiplicar os recursos empregados no sistema, \u00e9 consenso. Chega a ser espantoso que tenha havido, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, expans\u00e3o dos servi\u00e7os, e mesmo inova\u00e7\u00f5es de grande relev\u00e2ncia \u2013 a Estrat\u00e9gia de Sa\u00fade da Fam\u00edlia, por exemplo, foi implantada progressivamente, a partir de 1994 \u2013, em meio \u00e0 exiguidade de dinheiro. Mas num cen\u00e1rio de supera\u00e7\u00e3o do neoliberalismo fiscal, para o qual o projeto Resgate se volta, n\u00e3o bastar\u00e3o mais verbas: ser\u00e1 preciso corrigir problemas estruturais. Em 12 de agosto, dois grandes pensadores e militantes da Sa\u00fade P\u00fablica discutiram um dos mais relevantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ex-ministro Jos\u00e9 Gomes Tempor\u00e3o (hoje na Fiocruz) e o ex-secret\u00e1rio da Sa\u00fade de Curitiba Adriano Massuda (atualmente professor da FGV) abordaram a privatiza\u00e7\u00e3o que corr\u00f3i, por dentro, o Sistema \u00danico de Sa\u00fade. Falaram sobre a onipresen\u00e7a de hospitais e centros de diagn\u00f3stico privados. Denunciaram a entrega, a particulares, da gest\u00e3o das pr\u00f3prias unidades de aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria (porta de entrada e interface central da Sa\u00fade P\u00fablica com os usu\u00e1rios). Trataram da captura, por interesses privados, dos pr\u00f3prios equipamentos p\u00fablicos (por meio da indica\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria e clientelista de seus gestores). Apresentaram, para cada d\u00e9ficit, alternativas concretas. O investimento intenso, em especial na aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, \u00e9 o in\u00edcio de tudo. Mas precisa ser complementado com um plano de carreira nacional para os profissionais da Sa\u00fade; com modelos de gest\u00e3o e contrata\u00e7\u00e3o contempor\u00e2neos (os atuais s\u00e3o dos anos 1950); com um novo protagonismo p\u00fablico, mesmo na rela\u00e7\u00e3o com os prestadores privados; com novo federalismo transformado\u2013 capaz de manter a autonomia dos munic\u00edpios e, ao mesmo tempo, de impedir a fragmenta\u00e7\u00e3o do sistema. Uma tentativa, sempre limitada, de resumir o que disseram vem a seguir:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Primeiro passo: lutar contra o subfinanciamento:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em debate anterior, Francisco Funcia e Grazielle David haviam&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=sJwmMi_oh4I&amp;list=PL8-MmkaD6YQHEx619s-F0YcdmFcn4kPTv&amp;index=11&amp;t=38s\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">apresentado os mecanismos<\/a>&nbsp;por meio dos quais o SUS vem sendo subfinanciado h\u00e1 d\u00e9cadas \u2013 e passou a ser desfinanciado, ap\u00f3s o golpe de 2016. Mas o di\u00e1logo de ontem trouxe dados concretos sobre os resultados desta pol\u00edtica. Entre os pa\u00edses que mant\u00eam sistemas universais de Sa\u00fade, Fran\u00e7a e Alemanha investem, neles, entre US$ 3 e 5 mil anuais por cidad\u00e3o, apontou Massuda. No Brasil, acrescentou, s\u00e3o US$ 800 per capita \u2013 entre 3,5 e 6 vezes menos. Tempor\u00e3o mostrou como, mesmo em termos relativos, o Estado brasileiro despreza a Sa\u00fade. Brasil e Inglaterra investem, ambos, o equivalente a 9% do PIB em Sa\u00fade (ponderando renda per capita e popula\u00e7\u00e3o, significa que gastamos apenas 1\/6&nbsp;&nbsp;dos brit\u00e2nicos). Mas aqui, al\u00e9m disso, apenas 48% do disp\u00eandio \u00e9 feito no setor p\u00fablico \u2013 contra mais de 80% l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Concebido no per\u00edodo de ascenso das lutas sociais, que vai da segunda metade dos anos 1970 at\u00e9 a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, o SUS expressou, tamb\u00e9m, um desejo de igualdade. Mas sua institucionaliza\u00e7\u00e3o deu-se no per\u00edodo seguinte \u2013 marcado, ao contr\u00e1rio, por concentra\u00e7\u00e3o de renda e restri\u00e7\u00f5es ao gasto social. Esta contradi\u00e7\u00e3o, j\u00e1 haviam lembrado&nbsp;<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/resgate\/2021\/08\/02\/nos-que-amamos-tanto-o-sus\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">S\u00f4nia Fleury e Juarez Guimar\u00e3es<\/a>, \u00e9 a raiz principal das defici\u00eancias da Sa\u00fade P\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Hospitais privados, caminho da desarticula\u00e7\u00e3o:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O subfinanciamento do SUS e os benef\u00edcios do Estado brasileiro ao setor privado, criaram uma deforma\u00e7\u00e3o. A grande maioria dos atendimentos hospitalares oferecidos pela Sa\u00fade P\u00fablica \u00e9 feita em estabelecimentos privados: Santas Casas, outras institui\u00e7\u00f5es \u201cfilantr\u00f3picas\u201d, hospitais empresariais. \u00c9 pior ainda com os exames diagn\u00f3sticos, realizados, quase em sua totalidade, fora da rede pr\u00f3pria do SUS.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como agir diante deste quadro? Tempor\u00e3o cr\u00ea que seria irracional abandonar a rede privada, que foi constru\u00edda com recursos p\u00fablicos (financiamentos generosos da Caixa e do BNDES) e que formou e re\u00fane, de qualquer modo, capacidade e intelig\u00eancia. Mas o inadmiss\u00edvel, diz ele, \u00e9 que o SUS n\u00e3o mantenha com esta malha uma condi\u00e7\u00e3o de protagonismo. A Sa\u00fade p\u00fablica limita-se a contratar servi\u00e7os. N\u00e3o define padr\u00f5es, n\u00e3o estabelece metas, n\u00e3o exerce controle. Age como mero cliente. E paga mal \u2013 consequ\u00eancia do subfinanciamento. Os hospitais privados, a que recorre, servem, costumeiramente, a outros contratantes, com os quais firmam acordos menos prec\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A melhora da rede hospitalar implica, \u00e9 claro, investimento direto do SUS. Mas Tempor\u00e3o e Massuda concordam que \u00e9 poss\u00edvel manter, mesmo com a medicina privada, rela\u00e7\u00f5es muito mais favor\u00e1veis. \u00c9 preciso que a Sa\u00fade P\u00fablica comande tamb\u00e9m os particulares que contrata.&nbsp;&nbsp;H\u00e1 exemplos de como agir. Segundo Tempor\u00e3o, o&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.inca.gov.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Instituto Nacional do C\u00e2ncer<\/a>, \u00f3rg\u00e3o do SUS, mant\u00e9m uma rede de cerca de&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.inca.gov.br\/onde-tratar-pelo-sus\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">130 hospitais oncol\u00f3gicos<\/a>&nbsp;\u2013 p\u00fablicos, filantr\u00f3picos e privados \u2013 que atende com qualidade, por ser efetivamente coordenada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Reverter a terceiriza\u00e7\u00e3o das Unidades B\u00e1sicas:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 anos, e a partir de S\u00e3o Paulo, a terceiriza\u00e7\u00e3o chegou \u00e0 rede de aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica \u00e0 Sa\u00fade. Aqui o dano \u00e9 mais grave, porque s\u00e3o estas unidades que estabelecem e coordenam a rela\u00e7\u00e3o permanente entre o SUS e a popula\u00e7\u00e3o. No entanto, cerca de 10% a 12%, calcula Massuda, j\u00e1 s\u00e3o geridas por Organiza\u00e7\u00f5es Sociais (OSs), cuja l\u00f3gica n\u00e3o \u00e9 a da Sa\u00fade p\u00fablica. A prefeitura paulistana chegou ao c\u00famulo de entregar a terceiros n\u00e3o apenas as pr\u00f3prias UBS, mas a pr\u00f3pria Central de Regula\u00e7\u00e3o de Leitos, respons\u00e1vel por uma gest\u00e3o estrat\u00e9gica da qual o SUS jamais deveria abrir m\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A invas\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica pelas OSs foi, continua Massuda, a solu\u00e7\u00e3o simpl\u00f3ria para um problema complexo. As formas de gest\u00e3o adotadas na Sa\u00fade p\u00fablica (e no Estado brasileiro em geral) est\u00e3o ultrapassadas h\u00e1 muito. Datam dos anos 1950, quando o Brasil era majoritariamente rural&nbsp;&nbsp;e a estrutura estatal, pouco complexa. Para atualiz\u00e1-las, \u00e9 preciso determina\u00e7\u00e3o e, em certos casos, coragem para enfrentar e dirimir conflitos. Mas prevalece, ainda, o dogma ideol\u00f3gico segundo o qual o Estado n\u00e3o \u00e9 capaz de dar este passo. Por isso, as OSs espraiam-se.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tempor\u00e3o prop\u00f5e, como alternativa, investir em \u201cuma radical qualifica\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o da Estrat\u00e9gia Sa\u00fade da Fam\u00edlia\u201d e nas redes que a articulam: Policl\u00ednicas, Centros de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial (CAPS), Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e o Servi\u00e7o de Atendimento M\u00f3vel de Urg\u00eancia (SAMU). Seria, pensa ele, o caminho para que, antes de tudo, o SUS construa o que pode ser a espinha dorsal de um novo padr\u00e3o de garantia do Direito \u00e0 Sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Carreira nacional para os profissionais de Sa\u00fade:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas condi\u00e7\u00f5es de subfinanciamento atuais, acrescentaram Tempor\u00e3o e Massuda, o SUS oferece pouco aos profissionais de Sa\u00fade \u2013 e exige deles bem menos do que deveria. A quest\u00e3o vai muito al\u00e9m dos sal\u00e1rios. N\u00e3o h\u00e1, at\u00e9 hoje, por exemplo, uma carreira nacional para m\u00e9dic@s, enfermeir@s, psic\u00f3<a href=\"mailto:log@s%20e\">log@s e<\/a>&nbsp;nenhuma das outras profiss\u00f5es que atuam na Sa\u00fade p\u00fablica. As possibilidades de evoluir restringem-se, quando muito, a um munic\u00edpio. Inexiste (ao contr\u00e1rio do que ocorre, por exemplo, na Petrobr\u00e1s ou no Banco do Brasil) a possibilidade de prestar um concurso nacional, come\u00e7ar num posto remoto e, aos poucos, se for desejo, optar por uma localiza\u00e7\u00e3o mais central.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em contrapartida, o Estado \u00e9 frouxo ao cobrar responsabilidades. Os m\u00e9dicos, por exemplo, podem acumular dois empregos p\u00fablicos e trabalhar ao mesmo tempo no setor privado. Nestas condi\u00e7\u00f5es, \u00e9 quase imposs\u00edvel criar v\u00ednculos e \u00e9 tentador ter, no SUS, apenas uma fonte de renda a mais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tempor\u00e3o defende uma proposta que ele sabe ser pol\u00eamica. Acha que, como ocorre em outros pa\u00edses com sistemas universais, deveria ser vedado aos m\u00e9dicos acumular trabalho no SUS e no setor privado. Mas ele reconhece: \u00e9 imposs\u00edvel dar este passo sem oferecer condi\u00e7\u00f5es dignas de trabalho e carreira nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>N\u00e3o h\u00e1 futuro para a Sa\u00fade brasileira sem o SUS:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Medicina de dados, teleatendimento, biotecnologias. H\u00e1 in\u00fameras transforma\u00e7\u00f5es em curso, no cuidado com a Sa\u00fade. Seu sentido \u00e9 incerto. Podem abrir caminho para condi\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas de vida digna e bem-estar para as popula\u00e7\u00f5es. Amea\u00e7am, ao mesmo tempo, instalar um apartheid sanit\u00e1rio ainda mais profundo, ao restringir o acesso \u00e0s novas tecnologias apenas \u00e0 minoria capaz de pagar por elas. Mais uma vez, a disputa n\u00e3o se decidir\u00e1 no terreno da t\u00e9cnica, mas no da pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m por isso, frisaram Massuda e Tempor\u00e3o, \u00e9 preciso um SUS ampliado, fortalecido, capaz de assegurar que a Sa\u00fade P\u00fablica seja a de excel\u00eancia \u2013 desmercantilizada e igualit\u00e1ria, mas ao mesmo tempo avan\u00e7ada e humana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cSUS ou Medicina privada \u2013 quem ser\u00e1 capaz para a Sa\u00fade integral dos brasileiros?\u201d, perguntou Tempor\u00e3o em sua fala final. Basta comparar a riqueza e profundidade do di\u00e1logo, entre ele e Massuda, com a narrativa, cada vez mais rasa e marqueteira, dos defensores da sa\u00fade-mercadoria, para ter certeza da resposta.Para assistir na \u00edntegra a entrevista: https:\/\/youtu.be\/cS0eZhdatiQ<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Fonte: Outras Palavras<\/em><br><em>Publicado em 20\/09\/2021<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D\u00e9cadas de estrangulamento financeiro abriram, na Sa\u00fade P\u00fablica, brechas crescentes para terceiriza\u00e7\u00e3o, descoordena\u00e7\u00e3o e precariza\u00e7\u00e3o. Processos corroem atendimento p\u00fablico e rela\u00e7\u00e3o com profissionais. Ser\u00e1 preciso enfrent\u00e1-los. Leia abaixo a entrevista concedida de Adriano Massuado e Jos\u00e9 Gomes Tempor\u00e3o ao jornalista Antonio Martins. Que nenhum dos problemas do SUS ser\u00e1 sanado, sem multiplicar os recursos empregados no sistema, \u00e9 consenso. Chega a ser espantoso que tenha havido, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, expans\u00e3o dos servi\u00e7os, e mesmo inova\u00e7\u00f5es de grande relev\u00e2ncia \u2013 a Estrat\u00e9gia de Sa\u00fade da Fam\u00edlia, por exemplo, foi implantada progressivamente, a partir de 1994 \u2013, em meio \u00e0 exiguidade de dinheiro. Mas num cen\u00e1rio de supera\u00e7\u00e3o do neoliberalismo fiscal, para o qual o projeto Resgate se volta, n\u00e3o bastar\u00e3o mais verbas: ser\u00e1 preciso corrigir problemas estruturais. Em 12 de agosto, dois grandes pensadores e militantes da Sa\u00fade P\u00fablica discutiram um dos mais relevantes. O ex-ministro Jos\u00e9 Gomes Tempor\u00e3o (hoje na Fiocruz) e o ex-secret\u00e1rio da Sa\u00fade de Curitiba Adriano Massuda (atualmente professor da FGV) abordaram a privatiza\u00e7\u00e3o que corr\u00f3i, por dentro, o Sistema \u00danico de Sa\u00fade. Falaram sobre a onipresen\u00e7a de hospitais e centros de diagn\u00f3stico privados. Denunciaram a entrega, a particulares, da gest\u00e3o das pr\u00f3prias unidades de aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria (porta de entrada e interface central da Sa\u00fade P\u00fablica com os usu\u00e1rios). Trataram da captura, por interesses privados, dos pr\u00f3prios equipamentos p\u00fablicos (por meio da indica\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria e clientelista de seus gestores). Apresentaram, para cada d\u00e9ficit, alternativas concretas. O investimento intenso, em especial na aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, \u00e9 o in\u00edcio de tudo. Mas precisa ser complementado com um plano de carreira nacional para os profissionais da Sa\u00fade; com modelos de gest\u00e3o e contrata\u00e7\u00e3o contempor\u00e2neos (os atuais s\u00e3o dos anos 1950); com um novo protagonismo p\u00fablico, mesmo na rela\u00e7\u00e3o com os prestadores privados; com novo federalismo transformado\u2013 capaz de manter a autonomia dos munic\u00edpios e, ao mesmo tempo, de impedir a fragmenta\u00e7\u00e3o do sistema. Uma tentativa, sempre limitada, de resumir o que disseram vem a seguir: Primeiro passo: lutar contra o subfinanciamento: Em debate anterior, Francisco Funcia e Grazielle David haviam&nbsp;apresentado os mecanismos&nbsp;por meio dos quais o SUS vem sendo subfinanciado h\u00e1 d\u00e9cadas \u2013 e passou a ser desfinanciado, ap\u00f3s o golpe de 2016. Mas o di\u00e1logo de ontem trouxe dados concretos sobre os resultados desta pol\u00edtica. Entre os pa\u00edses que mant\u00eam sistemas universais de Sa\u00fade, Fran\u00e7a e Alemanha investem, neles, entre US$ 3 e 5 mil anuais por cidad\u00e3o, apontou Massuda. No Brasil, acrescentou, s\u00e3o US$ 800 per capita \u2013 entre 3,5 e 6 vezes menos. Tempor\u00e3o mostrou como, mesmo em termos relativos, o Estado brasileiro despreza a Sa\u00fade. Brasil e Inglaterra investem, ambos, o equivalente a 9% do PIB em Sa\u00fade (ponderando renda per capita e popula\u00e7\u00e3o, significa que gastamos apenas 1\/6&nbsp;&nbsp;dos brit\u00e2nicos). Mas aqui, al\u00e9m disso, apenas 48% do disp\u00eandio \u00e9 feito no setor p\u00fablico \u2013 contra mais de 80% l\u00e1. Concebido no per\u00edodo de ascenso das lutas sociais, que vai da segunda metade dos anos 1970 at\u00e9 a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, o SUS expressou, tamb\u00e9m, um desejo de igualdade. Mas sua institucionaliza\u00e7\u00e3o deu-se no per\u00edodo seguinte \u2013 marcado, ao contr\u00e1rio, por concentra\u00e7\u00e3o de renda e restri\u00e7\u00f5es ao gasto social. Esta contradi\u00e7\u00e3o, j\u00e1 haviam lembrado&nbsp;S\u00f4nia Fleury e Juarez Guimar\u00e3es, \u00e9 a raiz principal das defici\u00eancias da Sa\u00fade P\u00fablica. Hospitais privados, caminho da desarticula\u00e7\u00e3o: O subfinanciamento do SUS e os benef\u00edcios do Estado brasileiro ao setor privado, criaram uma deforma\u00e7\u00e3o. A grande maioria dos atendimentos hospitalares oferecidos pela Sa\u00fade P\u00fablica \u00e9 feita em estabelecimentos privados: Santas Casas, outras institui\u00e7\u00f5es \u201cfilantr\u00f3picas\u201d, hospitais empresariais. \u00c9 pior ainda com os exames diagn\u00f3sticos, realizados, quase em sua totalidade, fora da rede pr\u00f3pria do SUS. Como agir diante deste quadro? Tempor\u00e3o cr\u00ea que seria irracional abandonar a rede privada, que foi constru\u00edda com recursos p\u00fablicos (financiamentos generosos da Caixa e do BNDES) e que formou e re\u00fane, de qualquer modo, capacidade e intelig\u00eancia. Mas o inadmiss\u00edvel, diz ele, \u00e9 que o SUS n\u00e3o mantenha com esta malha uma condi\u00e7\u00e3o de protagonismo. A Sa\u00fade p\u00fablica limita-se a contratar servi\u00e7os. N\u00e3o define padr\u00f5es, n\u00e3o estabelece metas, n\u00e3o exerce controle. Age como mero cliente. E paga mal \u2013 consequ\u00eancia do subfinanciamento. Os hospitais privados, a que recorre, servem, costumeiramente, a outros contratantes, com os quais firmam acordos menos prec\u00e1rios. A melhora da rede hospitalar implica, \u00e9 claro, investimento direto do SUS. Mas Tempor\u00e3o e Massuda concordam que \u00e9 poss\u00edvel manter, mesmo com a medicina privada, rela\u00e7\u00f5es muito mais favor\u00e1veis. \u00c9 preciso que a Sa\u00fade P\u00fablica comande tamb\u00e9m os particulares que contrata.&nbsp;&nbsp;H\u00e1 exemplos de como agir. Segundo Tempor\u00e3o, o&nbsp;Instituto Nacional do C\u00e2ncer, \u00f3rg\u00e3o do SUS, mant\u00e9m uma rede de cerca de&nbsp;130 hospitais oncol\u00f3gicos&nbsp;\u2013 p\u00fablicos, filantr\u00f3picos e privados \u2013 que atende com qualidade, por ser efetivamente coordenada. Reverter a terceiriza\u00e7\u00e3o das Unidades B\u00e1sicas: H\u00e1 anos, e a partir de S\u00e3o Paulo, a terceiriza\u00e7\u00e3o chegou \u00e0 rede de aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica \u00e0 Sa\u00fade. Aqui o dano \u00e9 mais grave, porque s\u00e3o estas unidades que estabelecem e coordenam a rela\u00e7\u00e3o permanente entre o SUS e a popula\u00e7\u00e3o. No entanto, cerca de 10% a 12%, calcula Massuda, j\u00e1 s\u00e3o geridas por Organiza\u00e7\u00f5es Sociais (OSs), cuja l\u00f3gica n\u00e3o \u00e9 a da Sa\u00fade p\u00fablica. A prefeitura paulistana chegou ao c\u00famulo de entregar a terceiros n\u00e3o apenas as pr\u00f3prias UBS, mas a pr\u00f3pria Central de Regula\u00e7\u00e3o de Leitos, respons\u00e1vel por uma gest\u00e3o estrat\u00e9gica da qual o SUS jamais deveria abrir m\u00e3o. A invas\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o b\u00e1sica pelas OSs foi, continua Massuda, a solu\u00e7\u00e3o simpl\u00f3ria para um problema complexo. As formas de gest\u00e3o adotadas na Sa\u00fade p\u00fablica (e no Estado brasileiro em geral) est\u00e3o ultrapassadas h\u00e1 muito. Datam dos anos 1950, quando o Brasil era majoritariamente rural&nbsp;&nbsp;e a estrutura estatal, pouco complexa. Para atualiz\u00e1-las, \u00e9 preciso determina\u00e7\u00e3o e, em certos casos, coragem para enfrentar e dirimir conflitos. Mas prevalece, ainda, o dogma ideol\u00f3gico segundo o qual o Estado n\u00e3o \u00e9 capaz de dar este passo. Por isso, as OSs espraiam-se. Tempor\u00e3o prop\u00f5e, como alternativa, investir em \u201cuma radical qualifica\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o da Estrat\u00e9gia Sa\u00fade da Fam\u00edlia\u201d e nas redes que a articulam: Policl\u00ednicas, Centros de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial (CAPS), [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":2859,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[103],"tags":[],"class_list":["post-2862","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-saude"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2862","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2862"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2862\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2863,"href":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2862\/revisions\/2863"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2859"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2862"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2862"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2862"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}