{"id":2603,"date":"2021-01-08T13:08:53","date_gmt":"2021-01-08T16:08:53","guid":{"rendered":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/?p=2603"},"modified":"2022-06-18T22:56:42","modified_gmt":"2022-06-19T01:56:42","slug":"as-aranhas-usam-patas-para-ouvir-por-renne-rodrigues-e-marselle-nobre-de-carvalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/as-aranhas-usam-patas-para-ouvir-por-renne-rodrigues-e-marselle-nobre-de-carvalho\/","title":{"rendered":"As aranhas usam patas para ouvir? Por Renne Rodrigues e Marselle Nobre de Carvalho"},"content":{"rendered":"\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>Os farmac\u00eauticos Renne Rodrigues e Marselle Nobre de Carvalho destacam neste artigo a import\u00e2ncia da ci\u00eancia e da pesquisa para o desenvolvimento de medicamentos e como o negacionismo pode trazer graves consequ\u00eancias para a vida das pessoas. Leia abaixo na \u00edntegra.<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Embora cruel, existe uma anedota que ilustra bem algumas situa\u00e7\u00f5es. Conta a anedota que um menino desbravava o mundo da ci\u00eancia. Certo dia, guiado pela ideia de que a aranha escuta pelas patas, decidiu fazer uma experi\u00eancia, arrancando duas patas. O menino colocou-a no ch\u00e3o e disse para a aranha correr. Ela saiu correndo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como as aranhas t\u00eam cerca de quatro pares de patas, ele a pegou novamente e arrancou mais duas patas. Colocou-a no ch\u00e3o e mandou correr mais uma vez. Desengon\u00e7ada, ela tentou fugir. Como sobravam patas, o menino pensou que ela ainda escutava. Ent\u00e3o, arrancou as patas restantes, colocou-a no ch\u00e3o novamente e gritou: corre! Desta vez a aranha n\u00e3o correu e o menino concluiu que ela ouve pelas patas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ci\u00eancia segue um longo caminho, com avan\u00e7os e retrocessos, at\u00e9 que determinadas respostas possam ser consideradas v\u00e1lidas para a sociedade. O processo \u00e9, geralmente, lento e permite a reflex\u00e3o. Quando se fala em testes de uso de medicamentos s\u00e3o necess\u00e1rios v\u00e1rios estudos com um m\u00ednimo de qualidade para que determinado produto ou tratamento seja aprovado. As ag\u00eancias internacionais n\u00e3o aprovam se n\u00e3o for comparado com placebo, placebo-ativo ou mesmo com o tratamento padr\u00e3o dispon\u00edvel, o chamado grupo controle.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando n\u00e3o h\u00e1 grupo controle corre-se o risco de o resultado seguir impress\u00f5es dos autores e n\u00e3o a realidade. Um exemplo: uma amostra de 200 pacientes com gripe (influenza sazonal), com receita de uma ma\u00e7\u00e3 cortada em sete peda\u00e7os para ser ingerido um peda\u00e7o por dia durante sete dias. Ao final, \u00e9 esperado que ao menos 120 ou 160 pacientes tenham total remiss\u00e3o dos sintomas, que um ou dois sejam internados e nenhum v\u00e1 \u00e0 \u00f3bito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que se pode concluir desse experimento? Nada, mas o negacionista pode afirmar que a ma\u00e7\u00e3 cura gripe e falar que ela n\u00e3o mata. Na verdade, a gripe \u00e9 causada por um v\u00edrus e tem remiss\u00e3o dos sintomas em cerca de sete dias e agrava-se em determinadas situa\u00e7\u00f5es. E se esse racioc\u00ednio for usado para as terapias contra a Covid-19, que &#8211; como a gripe &#8211; \u00e9 causada por um v\u00edrus? &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As evid\u00eancias devem ser avaliadas \u00e0 luz da ci\u00eancia e n\u00e3o a partir da ingenuidade. Qualquer pesquisa que compare tratamentos para a Covid-19 (precoces ou hospitalares) precisa seguir normas \u00e9ticas de pesquisa com seres humanos, analisada por cientistas da \u00e1rea de conhecimento e publicada por boas revistas cient\u00edficas. \u00c9&nbsp; importante analisar a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica como um todo e n\u00e3o se basear em um \u00fanico estudo para tomar decis\u00f5es cl\u00ednicas. Por exemplo, existem artigos patrocinados pela ind\u00fastria do tabaco que \u201cindicam\u201d os benef\u00edcios de fumar. O que isso quer dizer? Que s\u00e3o estudos falhos, porque existem 10.000 outros que comprovam o contr\u00e1rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse processo \u00e9 complexo e transferir para a popula\u00e7\u00e3o a responsabilidade de verificar a veracidade da informa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 inadequado. Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio valorizar, cada vez mais, os relat\u00f3rios t\u00e9cnicos de institui\u00e7\u00f5es comprometidas com a ci\u00eancia, como Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade, FIOCRUZ e Universidades, com destaque para a UEL, que tem realizado muitas pesquisas sobre o novo coronav\u00edrus e a Covid-19.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A indica\u00e7\u00e3o e o uso de medicamentos para a Covid-19 devem se pautados em boas evid\u00eancias cient\u00edficas e estudos cl\u00ednicos respons\u00e1veis. Esse processo deve ser comparado com um grupo adequado, balanceado e homog\u00eaneo, para evitar resultado sem valor cient\u00edfico. Que em 2021, consigamos ser um pa\u00eds melhor, mas para isso temos de escolher entre nos pautar pela ci\u00eancia ou nas aranhas que usam as patas para ouvir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>*Renne Rodrigues \u00e9 doutor em Sa\u00fade Coletiva (UEL),&nbsp;Marselle Nobre de Carvalho \u00e9 doutora em Ci\u00eancias Farmac\u00eauticas (UnB). Ambos s\u00e3o farmac\u00eauticos e professores do Departamento de Sa\u00fade Coletiva da UEL.<br>Publicado em 08\/01\/2021<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os farmac\u00eauticos Renne Rodrigues e Marselle Nobre de Carvalho destacam neste artigo a import\u00e2ncia da ci\u00eancia e da pesquisa para o desenvolvimento de medicamentos e como o negacionismo pode trazer graves consequ\u00eancias para a vida das pessoas. Leia abaixo na \u00edntegra. Embora cruel, existe uma anedota que ilustra bem algumas situa\u00e7\u00f5es. Conta a anedota que um menino desbravava o mundo da ci\u00eancia. Certo dia, guiado pela ideia de que a aranha escuta pelas patas, decidiu fazer uma experi\u00eancia, arrancando duas patas. O menino colocou-a no ch\u00e3o e disse para a aranha correr. Ela saiu correndo. Como as aranhas t\u00eam cerca de quatro pares de patas, ele a pegou novamente e arrancou mais duas patas. Colocou-a no ch\u00e3o e mandou correr mais uma vez. Desengon\u00e7ada, ela tentou fugir. Como sobravam patas, o menino pensou que ela ainda escutava. Ent\u00e3o, arrancou as patas restantes, colocou-a no ch\u00e3o novamente e gritou: corre! Desta vez a aranha n\u00e3o correu e o menino concluiu que ela ouve pelas patas. A ci\u00eancia segue um longo caminho, com avan\u00e7os e retrocessos, at\u00e9 que determinadas respostas possam ser consideradas v\u00e1lidas para a sociedade. O processo \u00e9, geralmente, lento e permite a reflex\u00e3o. Quando se fala em testes de uso de medicamentos s\u00e3o necess\u00e1rios v\u00e1rios estudos com um m\u00ednimo de qualidade para que determinado produto ou tratamento seja aprovado. As ag\u00eancias internacionais n\u00e3o aprovam se n\u00e3o for comparado com placebo, placebo-ativo ou mesmo com o tratamento padr\u00e3o dispon\u00edvel, o chamado grupo controle.&nbsp; Quando n\u00e3o h\u00e1 grupo controle corre-se o risco de o resultado seguir impress\u00f5es dos autores e n\u00e3o a realidade. Um exemplo: uma amostra de 200 pacientes com gripe (influenza sazonal), com receita de uma ma\u00e7\u00e3 cortada em sete peda\u00e7os para ser ingerido um peda\u00e7o por dia durante sete dias. Ao final, \u00e9 esperado que ao menos 120 ou 160 pacientes tenham total remiss\u00e3o dos sintomas, que um ou dois sejam internados e nenhum v\u00e1 \u00e0 \u00f3bito.&nbsp; O que se pode concluir desse experimento? Nada, mas o negacionista pode afirmar que a ma\u00e7\u00e3 cura gripe e falar que ela n\u00e3o mata. Na verdade, a gripe \u00e9 causada por um v\u00edrus e tem remiss\u00e3o dos sintomas em cerca de sete dias e agrava-se em determinadas situa\u00e7\u00f5es. E se esse racioc\u00ednio for usado para as terapias contra a Covid-19, que &#8211; como a gripe &#8211; \u00e9 causada por um v\u00edrus? &nbsp; As evid\u00eancias devem ser avaliadas \u00e0 luz da ci\u00eancia e n\u00e3o a partir da ingenuidade. Qualquer pesquisa que compare tratamentos para a Covid-19 (precoces ou hospitalares) precisa seguir normas \u00e9ticas de pesquisa com seres humanos, analisada por cientistas da \u00e1rea de conhecimento e publicada por boas revistas cient\u00edficas. \u00c9&nbsp; importante analisar a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica como um todo e n\u00e3o se basear em um \u00fanico estudo para tomar decis\u00f5es cl\u00ednicas. Por exemplo, existem artigos patrocinados pela ind\u00fastria do tabaco que \u201cindicam\u201d os benef\u00edcios de fumar. O que isso quer dizer? Que s\u00e3o estudos falhos, porque existem 10.000 outros que comprovam o contr\u00e1rio.&nbsp; Esse processo \u00e9 complexo e transferir para a popula\u00e7\u00e3o a responsabilidade de verificar a veracidade da informa\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 inadequado. Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio valorizar, cada vez mais, os relat\u00f3rios t\u00e9cnicos de institui\u00e7\u00f5es comprometidas com a ci\u00eancia, como Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade, FIOCRUZ e Universidades, com destaque para a UEL, que tem realizado muitas pesquisas sobre o novo coronav\u00edrus e a Covid-19.&nbsp; A indica\u00e7\u00e3o e o uso de medicamentos para a Covid-19 devem se pautados em boas evid\u00eancias cient\u00edficas e estudos cl\u00ednicos respons\u00e1veis. Esse processo deve ser comparado com um grupo adequado, balanceado e homog\u00eaneo, para evitar resultado sem valor cient\u00edfico. Que em 2021, consigamos ser um pa\u00eds melhor, mas para isso temos de escolher entre nos pautar pela ci\u00eancia ou nas aranhas que usam as patas para ouvir. *Renne Rodrigues \u00e9 doutor em Sa\u00fade Coletiva (UEL),&nbsp;Marselle Nobre de Carvalho \u00e9 doutora em Ci\u00eancias Farmac\u00eauticas (UnB). 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