{"id":2483,"date":"2020-09-29T16:44:48","date_gmt":"2020-09-29T19:44:48","guid":{"rendered":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/?p=2483"},"modified":"2023-08-06T13:49:32","modified_gmt":"2023-08-06T16:49:32","slug":"covid-19-pesquisador-aponta-que-acesso-a-vacina-e-tao-critico-quanto-a-sua-existencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/covid-19-pesquisador-aponta-que-acesso-a-vacina-e-tao-critico-quanto-a-sua-existencia\/","title":{"rendered":"Covid-19: Pesquisador aponta que acesso \u00e0 vacina \u00e9 t\u00e3o cr\u00edtico quanto a sua exist\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>Em entrevista para o site da Escola Polit\u00e9cnica de Sa\u00fade Joaquim Ven\u00e2ncio (EPSJV\/Fiocruz), o pesquisador do Instituto Gon\u00e7alo Moniz (Fiocruz Bahia) Manoel Barral apresenta porque a vacina n\u00e3o deve ser vista como solu\u00e7\u00e3o \u00fanica de retorno das aulas presenciais. Al\u00e9m do acesso aos insumos, a forma de distribui\u00e7\u00e3o de vacina de maneira global ainda \u00e9 um dos desafios a serem enfrentados.<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Barral explica ainda que todas as a\u00e7\u00f5es relacionadas ao enfrentamento do Covid-19 devem ser de forma coletiva. N\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o \u00fanica nem a\u00e7\u00f5es individuais que possam dar conta de tamanha complexidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>EPSJV\/Fiocruz: De maneira geral, para que serve uma vacina?<br><\/strong><strong>Manoel Barral:<\/strong>&nbsp;A vacina \u00e9 um mecanismo seguro de induzir uma resposta protetora contra, normalmente, um agente infeccioso. Hoje em dia existe a possibilidade de combate a doen\u00e7as n\u00e3o infecciosas. Mas o grande alvo delas ainda s\u00e3o as doen\u00e7as infecciosas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A gente pode atrelar a volta \u00e0s aulas com a vacina? Ela \u00e9 determinante?<\/strong><br>Eu acredito que n\u00e3o. Primeiro porque a gente n\u00e3o basta s\u00f3 descobrir, \u00e9 preciso que essa vacina seja segura e protetora e n\u00e3o cause mais problemas do que a doen\u00e7a. E isso pode acontecer, a vacina agravar a doen\u00e7a. &nbsp;E depois, quando tudo isso se produzir, mesmo que rapidamente, como n\u00f3s esperamos, ainda vai demorar um tempo bastante razo\u00e1vel para que a gente consiga vacinar uma grande parte da popula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 um processo r\u00e1pido proteger a popula\u00e7\u00e3o com uma vacina que \u00e9 necess\u00e1ria para bilh\u00f5es de pessoas. A gente n\u00e3o est\u00e1 falando de uma doen\u00e7a que \u00e9 localizada, em que rapidamente se pode produzir a quantidade de doses necess\u00e1rias. A gente est\u00e1 falando em vacinar em escala global, s\u00f3 aqui no Brasil s\u00e3o mais de 200 milh\u00f5es de pessoas. &nbsp;Ent\u00e3o ningu\u00e9m sabe quando teremos uma vacina efetiva e segura e quando, ap\u00f3s isso resolvido, conseguiremos vacinar uma grande parte da nossa popula\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o pode ser um prazo que pode correr o risco de ser muito longo para o retorno \u00e0s aulas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Quais seriam os elementos que, apesar de n\u00e3o existir a vacina, podemos estabelecer para que com eles sob controle podemos pensar nesse retorno \u00e0s aulas?<\/strong><br>O que a gente precisa basicamente \u00e9 manter todas as medidas que j\u00e1 t\u00eam hoje do ponto de vista de prote\u00e7\u00e3o, como distanciamento, uso de m\u00e1scara, mas come\u00e7ar dois aspectos fundamentais: o primeiro que \u00e9 extremamente cr\u00edtico que \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o da transmiss\u00e3o atrav\u00e9s da identifica\u00e7\u00e3o dos contatos e seu isolamento dos casos e quarentena dos contatos. Porque essa \u00e9 a forma, na aus\u00eancia de uma vacina, de reduzir o n\u00famero de casos na comunidade. Isso tornaria o risco muito menor. Evidentemente, enquanto n\u00e3o houver uma vacina\u00e7\u00e3o em massa vai haver risco. &nbsp;Mas a\u00ed voc\u00ea tem que come\u00e7ar a ponderar o risco de infec\u00e7\u00f5es com o risco de atraso t\u00e3o grande das atividades escolares, principalmente as presenciais, porque as atividades \u00e0 dist\u00e2ncia cobrem uma parte, mas n\u00e3o cobrem tudo. Ent\u00e3o, esse retardo de volta \u00e0s aulas tamb\u00e9m tem impacto e a gente n\u00e3o pode desconsiderar o risco que representa. \u00c9 preciso saber ponder\u00e1-lo. \u00c9 claro que a vacina tem um elemento importante nisso. &nbsp;A minha cautela \u00e9 a de que se a gente n\u00e3o tiver uma vacina muito r\u00e1pido, que a gente comece a ter alternativas. &nbsp;Uma delas \u00e9 ter baixa transmiss\u00e3o. E a gente no Brasil ainda est\u00e1 com uma taxa de transmiss\u00e3o ainda muito elevada na maioria dos locais, o que inviabiliza a volta \u00e0s aulas. &nbsp;N\u00e3o seria uma volta respons\u00e1vel. A gente precisaria reduzir a transmiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Muitas escolas est\u00e3o se modificando e algumas privadas j\u00e1 anunciaram que est\u00e3o aptas ao retorno. As condi\u00e7\u00f5es escolares isoladas trariam seguran\u00e7a para o retorno dos estudantes?<\/strong><br>L\u00f3gico que por mais cuidados que as escolas ofere\u00e7am, se voc\u00ea n\u00e3o tiver uma redu\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria vai ter reflexos importantes. Ent\u00e3o, mesmo na escola privada voc\u00ea tem os trabalhadores que n\u00e3o tem a mesma condi\u00e7\u00e3o de transporte dos estudantes e usam transporte p\u00fablico. E essas pessoas podem estar disseminando infec\u00e7\u00e3o. As escolas n\u00e3o existem como uma bolha totalmente separada da comunidade. \u00c9 preciso que haja condi\u00e7\u00f5es compat\u00edveis para que se possa fazer uma prote\u00e7\u00e3o adequada n\u00e3o somente dos alunos, mas tamb\u00e9m de toda comunidade escolar. \u00c9 importante agir coletivamente e n\u00e3o de forma individual nesse processo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A vacina\u00e7\u00e3o em massa significa o fim do risco de contamina\u00e7\u00e3o?<\/strong><br>A rigor n\u00e3o. O que acontece \u00e9 uma diminui\u00e7\u00e3o grande do risco. O que a gente sempre pondera \u00e9 quanto do risco est\u00e1 disposto a correr. \u00c9 preciso sempre colocar nessa perspectiva. O grande problema \u00e9 que al\u00e9m de ter essas caracter\u00edsticas intr\u00ednsecas, que tenha uma vacina segura, que n\u00e3o agrave a doen\u00e7a. A gente n\u00e3o tem ainda essa vacina, temos bons candidatos, mas n\u00e3o tem ainda. Mas mesmo quando a gente tiver essa vacina a gente n\u00e3o deve esquecer que \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o que o mundo deseja. Nunca teve uma campanha de vacina\u00e7\u00e3o como a gente est\u00e1 prevendo para essa demanda contra a Covid-19. E, al\u00e9m disso, vamos pensar numa hip\u00f3tese de que a vacina n\u00e3o ser\u00e1 em dose \u00fanica. Voc\u00ea ter\u00e1 que ter uma campanha de vacina\u00e7\u00e3o que vai atingir a pessoa para que ela seja vacinada duas vezes. Claramente estamos falando de um esfor\u00e7o enorme, em que podem faltar coisas b\u00e1sicas como seringa, agulha ou coisas desse tipo. Ent\u00e3o, a produ\u00e7\u00e3o para manter a cadeia funcionando em grande volume \u00e9 algo que a gente n\u00e3o tem, e j\u00e1 deveria estar trabalhando nessa log\u00edstica e estimar tudo que a gente deveria &nbsp;precisar. Isso j\u00e1 deveria estar sendo feito. De alguma maneira preparar essa log\u00edstica para uma campanha desse porte. A gente viu que faltaram elementos b\u00e1sicos para atendimento nas UTI\u2019s &nbsp;n\u00e3o s\u00f3 no Brasil como em outros pa\u00edses tamb\u00e9m. E entra tamb\u00e9m a quest\u00e3o de custo. Quanto vai custar essa vacina, como ela vai ser disponibilizada para uma demanda t\u00e3o grande de todo mundo vacinar de uma vez s\u00f3. No sarampo, por exemplo, a cada ano voc\u00ea vacina uma faixa et\u00e1ria espec\u00edfica de crian\u00e7as. Diferentemente dessa que ser\u00e1 para todos. E mesmo no caso de sarampo, que n\u00e3o precisamos fazer uma mega opera\u00e7\u00e3o de vacina, 140 mil crian\u00e7as morrem no mundo por falta de prote\u00e7\u00e3o, por n\u00e3o receberam a vacina. O acesso \u00e0 vacina \u00e9 t\u00e3o cr\u00edtico quanto a exist\u00eancia dela. &nbsp;\u00c9 um processo mais global. N\u00e3o basta ter a vacina e come\u00e7ar a produzi-la. \u00c9 preciso que a vacina chegue nas pessoas na \u00e9poca adequada. E todos n\u00f3s n\u00e3o podemos pensar em proteger s\u00f3 uma parcela da popula\u00e7\u00e3o e achar que o problema est\u00e1 resolvido. \u00c9 preciso que a gente atinja realmente toda a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A participa\u00e7\u00e3o da Fiocruz traz algum tipo de prioridade para os brasileiros no acesso \u00e0 vacina?<\/strong><br>\u00c9 claro que h\u00e1 uma vantagem nesse caso porque a pr\u00f3pria Fiocruz est\u00e1 se preparando para produzir localmente. Ent\u00e3o isso faz com que a gente tenha uma garantia de acesso. \u00c9 importante lembrar que houve at\u00e9 intercepta\u00e7\u00e3o de avi\u00f5es para pegar carga de respiradores\u2026 Uma situa\u00e7\u00e3o semelhante a essa pode acontecer com a vacina. &nbsp;Os pa\u00edses poderosos v\u00e3o querer garantir as doses de vacina. Isso mostra mais do que nunca como \u00e9 importante para um pa\u00eds ter ci\u00eancia e tecnologia produzidas localmente. &nbsp;A gente vai ter uma certa vantagem na vacina porque temos capacidade de produ\u00e7\u00e3o. Se o material fosse produzido nos Estados Unidos, na China ou na Inglaterra, evidentemente, que ir\u00edamos receber muito pouco at\u00e9 que eles conseguissem vacinar quase toda a sua popula\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 um elemento que a OMS [Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade] tenta adequar, discutindo e colocando em quest\u00e3o o acesso universal, mas se a gente n\u00e3o tiver uma produ\u00e7\u00e3o em massa e vi\u00e1vel, evidentemente que os pa\u00edses v\u00e3o acabar saindo desses esquemas cooperativos e defender o seu quinh\u00e3o primeiro. \u00c9 necess\u00e1rio pensar nessa crise e no futuro. Se a gente n\u00e3o investir em ci\u00eancia e tecnologia nacional, se a gente n\u00e3o tiver alternativas nossas com capacidade de desenvolvimento de uma vacina do zero e de produ\u00e7\u00e3o local, a gente tem uma depend\u00eancia muito grande no contexto internacional. V\u00e1rios pa\u00edses da Europa e o pr\u00f3prio Estados Unidos t\u00eam tomado medidas de produzir novamente insumos que a China passou a centralizar a produ\u00e7\u00e3o, por conta do pre\u00e7o como m\u00e1scara de prote\u00e7\u00e3o, entre outros itens. Tudo isso faltou no mundo porque s\u00f3 quem produz hoje \u00e9 a China, e em alguns casos, a \u00cdndia. Mas como isso come\u00e7ou na China, eles fecharam essa remessa para ter disponibilidade local, al\u00e9m de todo impacto que teve em suas pr\u00f3prias f\u00e1bricas etc. Se a gente n\u00e3o tiver essa vis\u00e3o de que a produ\u00e7\u00e3o local continua sendo importante para essas situa\u00e7\u00f5es de emerg\u00eancia internacional isso tamb\u00e9m \u00e9 um elemento de fragilidade. N\u00e3o precisa ser nada muito sofisticado. N\u00e3o \u00e9 para fazer grandes drogas. &nbsp;Ou drogas novas, ou vacinas novas, mas a produ\u00e7\u00e3o local \u00e9 importante at\u00e9 por essa quest\u00e3o de pane no sistema de log\u00edstica internacional por uma raz\u00e3o como uma emerg\u00eancia sanit\u00e1ria como essa. Claramente a gente tem que repensar nosso sistema de produ\u00e7\u00e3o no complexo industrial da sa\u00fade. Tanto o desenvolvimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico quanto a produ\u00e7\u00e3o local s\u00e3o estrat\u00e9gias que vimos com essa experi\u00eancia que s\u00e3o importantes e devem ser fortalecidos. &nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Estamos com tr\u00eas vacinas, digamos, mais midi\u00e1ticas que s\u00e3o a de produ\u00e7\u00e3o em parceria com a China, a da R\u00fassia e essa da Fiocruz. Queria que o senhor pudesse esclarecer algumas quest\u00f5es relacionadas a elas que circularam nas redes sociais. Existe vacina sendo realizada com feto humano? Qual \u00e9 a quest\u00e3o de seguran\u00e7a da vacina russa? Podemos dizer que uma \u00e9 mais segura que a outra?<br><\/strong>Essa quest\u00e3o de que temos vacinas de produ\u00e7\u00e3o de vacinas com subst\u00e2ncias mais estranhas n\u00e3o t\u00eam nenhuma base. Todo esse processo de produ\u00e7\u00e3o de vacina hoje \u00e9 muito conhecido. E seria muito mais caro esse processo se pens\u00e1ssemos em produzi-las com feto ou coisa assim. Tudo isso \u00e9 uma produ\u00e7\u00e3o que depende muito de qu\u00edmica e bioqu\u00edmica que j\u00e1 est\u00e1 muito estabelecido, barato e seguro se produzir da forma que j\u00e1 se conhece do que come\u00e7ar uma produ\u00e7\u00e3o. A gente tem vacinas, como a da febre amarela, que usa ovo de galinha porque s\u00e3o vacinas desenvolvidas h\u00e1 muitos anos, quando n\u00e3o se tinha o desenvolvimento que tem hoje e ainda nos dias atuais n\u00e3o existe investimento para modernizar essa vacina. &nbsp;Mas hoje n\u00e3o tem a menor l\u00f3gica pensar que uma vacina ser\u00e1 desenvolvida por uma metodologia igual a de muitos anos e n\u00e3o vai utilizar toda tecnologia dispon\u00edvel. Seria completamente il\u00f3gico uma vacina dessa. N\u00e3o interessaria a ningu\u00e9m. Nem ao produtor. Sobre a seguran\u00e7a da vacina, hoje n\u00e3o podemos afirmar que uma \u00e9 mais segura que a outra porque nenhuma vacina chegou ainda na conclus\u00e3o da fase 3. O processo de produ\u00e7\u00e3o de uma vacina envolve as fases que t\u00eam sido muito faladas: a fase 1 que voc\u00ea testa em poucas pessoas e atesta se a vacina n\u00e3o causa muitas les\u00f5es, se ela n\u00e3o causa uma febre absurda. \u00c9 um produto que est\u00e1 sendo inventado. N\u00e3o \u00e9 uma vacina ainda. Na segunda etapa, a fase 2, voc\u00ea expande isso para um maior n\u00famero de indiv\u00edduos &nbsp;e passa a avaliar tamb\u00e9m o efeito no homem, no sistema imune humano. J\u00e1 na fase 3, que \u00e9 a fase &nbsp;que deve ser testada em dezenas de milhares de pessoas, &nbsp;voc\u00ea se certifica que a vacina \u00e9 uma subst\u00e2ncia que n\u00e3o d\u00e1 rea\u00e7\u00f5es adversas importantes e &nbsp;\u00e9 capaz de induzir uma resposta imune boa, correta, protetora. &nbsp;E \u00e9 nessa fase que tem uma variedade de pessoas que voc\u00ea pode ver outras rea\u00e7\u00f5es mais raras, que n\u00e3o d\u00e1 para ver nas fases anteriores. O grande problema que a comunidade cient\u00edfica est\u00e1 enfrentando agora \u00e9 a press\u00e3o da sociedade quanto dos pol\u00edticos para reduzir a fase 3. J\u00e1 na avalia\u00e7\u00e3o da vacina russa n\u00e3o h\u00e1 nenhuma evid\u00eancia que ela seja melhor ou pior do que as outras. O que a comunidade cient\u00edfica tem criticado \u00e9 o fato dos resultados das primeiras fases n\u00e3o terem sido divulgados como todas as outras candidatas. &nbsp;E isso \u00e9 um pacto internacional. Mas n\u00e3o podemos dizer que ela n\u00e3o protege ou \u00e9 danosa, a comunidade cient\u00edfica s\u00f3 n\u00e3o sabe quais foram eles, portanto, gera especula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Existem dois conceitos que \u00e9 o de bloqueio de infec\u00e7\u00e3o e de doen\u00e7a. H\u00e1 alguma diferen\u00e7a entre eles para o retorno \u00e0s aulas?<\/strong><br>Quando a gente consegue bloquear a infec\u00e7\u00e3o significa que as pessoas n\u00e3o v\u00e3o conseguir transmitir. Se a vacina s\u00f3 proteger da doen\u00e7a a pessoa pode estar infectada e transmitir. Isso, portanto, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o eficiente para ter uma prote\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria do v\u00edrus. A vacina que bloqueia a infec\u00e7\u00e3o vai ter uma efici\u00eancia muito maior no sentido de diminuir a transmiss\u00e3o e proteger os indiv\u00edduos que ainda n\u00e3o foram vacinados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Podemos dizer que estamos vivendo a imunidade comunit\u00e1ria? Isso pode ser considerada uma estrat\u00e9gia sem vacina?<\/strong><br>Quando um v\u00edrus chega numa comunidade em que nunca ningu\u00e9m havia tido contato com o v\u00edrus antes, todos ficam suscet\u00edveis a pegar a doen\u00e7a. Ent\u00e3o, se algu\u00e9m se infectar, ele tem condi\u00e7\u00f5es de transmitir para uma, duas, dez pessoas. Isso que se chama taxa de transmiss\u00e3o do v\u00edrus. Uma coisa que se demonstrou e que foi bastante verificada \u00e9 que ele tem uma taxa de transmiss\u00e3o muito elevada. Ent\u00e3o, se voc\u00ea chega numa comunidade onde ningu\u00e9m est\u00e1 protegido, a chance de transmitir \u00e9 muito alta e r\u00e1pida. Quando voc\u00ea tem uma parte da popula\u00e7\u00e3o que est\u00e1 protegida, e isso tamb\u00e9m se faz com a exposi\u00e7\u00e3o ao v\u00edrus, e o corpo faz sua resposta imune isso vai diminuindo a possibilidade de infec\u00e7\u00e3o do v\u00edrus. Imunidade comunit\u00e1ria \u00e9 quando muitas pessoas forem resistentes menor a chance do v\u00edrus se espalhar. Voc\u00ea tem duas maneiras de atingir isso. Uma delas \u00e9 muita gente ficar infectada. O problema \u00e9 que voc\u00ea ter\u00e1 muita gente sofrendo, muita gente morrendo para chegar num n\u00edvel necess\u00e1rio para a prote\u00e7\u00e3o. &nbsp;A forma mais segura de chegar \u00e0 imunidade comunit\u00e1ria \u00e9 ter isso atrav\u00e9s da vacina porque as pessoas se protegem sem o risco. A imunidade desenvolvida naturalmente \u00e9 um risco muito elevado. E, portanto, n\u00e3o pode ser vista como solu\u00e7\u00e3o de chegar \u00e0 imunidade comunit\u00e1ria com a exposi\u00e7\u00e3o natural. Ainda mais com uma doen\u00e7a grave como essa que mata. Se fosse uma doen\u00e7a que n\u00e3o tivesse mortalidade, que casos graves fossem raros, ainda seria questionado, mas numa situa\u00e7\u00e3o como essa n\u00e3o \u00e9 razo\u00e1vel falar de imunidade comunit\u00e1ria atingida por infec\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A vacina deve ser encarada como um pacto social?<\/strong><br>A vacina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria teria justificativa para alguns casos sanit\u00e1rios, mas isso realmente \u00e9 uma outra esfera. Sempre temos que fazer o equil\u00edbrio entre riscos. E no caso da vacina teria que ter condi\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas para torn\u00e1-la obrigat\u00f3ria. Do ponto de vista cient\u00edfico sanit\u00e1rio faz todo sentido que a gente tivesse uma forma mais efetiva de vacina\u00e7\u00e3o. Para ilustrar, um jovem infectado com o grau de doen\u00e7a mais leve poderia pensar em n\u00e3o tomar vacina, mas ele estar\u00e1 prejudicando outras pessoas que &nbsp;teriam a possibilidade de se proteger, caso ele n\u00e3o tivesse a infec\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma responsabilidade social. N\u00e3o \u00e9 uma doen\u00e7a que &nbsp;fica s\u00f3 para voc\u00ea. Ent\u00e3o, claramente, voc\u00ea tem que proteger os outros tamb\u00e9m. Mas, ainda que n\u00e3o haja compulsoriedade da vacina, o esfor\u00e7o governamental deve ser feito de forma a vacinar em grande quantidade e convencer a popula\u00e7\u00e3o desse benef\u00edcio. Os mitos em rela\u00e7\u00e3o a vacina deveriam estar sendo desconstru\u00eddos e os benef\u00edcios, que s\u00e3o f\u00e1ceis de comprovar, sendo divulgados. A vacina\u00e7\u00e3o \u00e9, talvez, a medida mais importante do s\u00e9culo 20 e que permitiu a sobreviv\u00eancia de pessoas, aumento da expectativa de vida e tem um impacto na qualidade e sobrevida das pessoas extremamente importante. Voc\u00ea deixar de convencer as pessoas de tomar a vacina n\u00e3o \u00e9 uma boa medida no \u00e2mbito da educa\u00e7\u00e3o em sa\u00fade. Deveria ter um esfor\u00e7o oposto a isso, de convencimento da import\u00e2ncia e seguran\u00e7a que a vacina confere, mesmo que n\u00e3o obrigat\u00f3rio, por meio de v\u00e1rios meios educacionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Publicado em 18\/09\/2020<\/em><br><em>Fonte: Ag\u00eancia Fiocruz de Not\u00edcias<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em entrevista para o site da Escola Polit\u00e9cnica de Sa\u00fade Joaquim Ven\u00e2ncio (EPSJV\/Fiocruz), o pesquisador do Instituto Gon\u00e7alo Moniz (Fiocruz Bahia) Manoel Barral apresenta porque a vacina n\u00e3o deve ser vista como solu\u00e7\u00e3o \u00fanica de retorno das aulas presenciais. Al\u00e9m do acesso aos insumos, a forma de distribui\u00e7\u00e3o de vacina de maneira global ainda \u00e9 um dos desafios a serem enfrentados. Barral explica ainda que todas as a\u00e7\u00f5es relacionadas ao enfrentamento do Covid-19 devem ser de forma coletiva. N\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o \u00fanica nem a\u00e7\u00f5es individuais que possam dar conta de tamanha complexidade. EPSJV\/Fiocruz: De maneira geral, para que serve uma vacina?Manoel Barral:&nbsp;A vacina \u00e9 um mecanismo seguro de induzir uma resposta protetora contra, normalmente, um agente infeccioso. Hoje em dia existe a possibilidade de combate a doen\u00e7as n\u00e3o infecciosas. Mas o grande alvo delas ainda s\u00e3o as doen\u00e7as infecciosas. A gente pode atrelar a volta \u00e0s aulas com a vacina? Ela \u00e9 determinante?Eu acredito que n\u00e3o. Primeiro porque a gente n\u00e3o basta s\u00f3 descobrir, \u00e9 preciso que essa vacina seja segura e protetora e n\u00e3o cause mais problemas do que a doen\u00e7a. E isso pode acontecer, a vacina agravar a doen\u00e7a. &nbsp;E depois, quando tudo isso se produzir, mesmo que rapidamente, como n\u00f3s esperamos, ainda vai demorar um tempo bastante razo\u00e1vel para que a gente consiga vacinar uma grande parte da popula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 um processo r\u00e1pido proteger a popula\u00e7\u00e3o com uma vacina que \u00e9 necess\u00e1ria para bilh\u00f5es de pessoas. A gente n\u00e3o est\u00e1 falando de uma doen\u00e7a que \u00e9 localizada, em que rapidamente se pode produzir a quantidade de doses necess\u00e1rias. A gente est\u00e1 falando em vacinar em escala global, s\u00f3 aqui no Brasil s\u00e3o mais de 200 milh\u00f5es de pessoas. &nbsp;Ent\u00e3o ningu\u00e9m sabe quando teremos uma vacina efetiva e segura e quando, ap\u00f3s isso resolvido, conseguiremos vacinar uma grande parte da nossa popula\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o pode ser um prazo que pode correr o risco de ser muito longo para o retorno \u00e0s aulas. Quais seriam os elementos que, apesar de n\u00e3o existir a vacina, podemos estabelecer para que com eles sob controle podemos pensar nesse retorno \u00e0s aulas?O que a gente precisa basicamente \u00e9 manter todas as medidas que j\u00e1 t\u00eam hoje do ponto de vista de prote\u00e7\u00e3o, como distanciamento, uso de m\u00e1scara, mas come\u00e7ar dois aspectos fundamentais: o primeiro que \u00e9 extremamente cr\u00edtico que \u00e9 a redu\u00e7\u00e3o da transmiss\u00e3o atrav\u00e9s da identifica\u00e7\u00e3o dos contatos e seu isolamento dos casos e quarentena dos contatos. Porque essa \u00e9 a forma, na aus\u00eancia de uma vacina, de reduzir o n\u00famero de casos na comunidade. Isso tornaria o risco muito menor. Evidentemente, enquanto n\u00e3o houver uma vacina\u00e7\u00e3o em massa vai haver risco. &nbsp;Mas a\u00ed voc\u00ea tem que come\u00e7ar a ponderar o risco de infec\u00e7\u00f5es com o risco de atraso t\u00e3o grande das atividades escolares, principalmente as presenciais, porque as atividades \u00e0 dist\u00e2ncia cobrem uma parte, mas n\u00e3o cobrem tudo. Ent\u00e3o, esse retardo de volta \u00e0s aulas tamb\u00e9m tem impacto e a gente n\u00e3o pode desconsiderar o risco que representa. \u00c9 preciso saber ponder\u00e1-lo. \u00c9 claro que a vacina tem um elemento importante nisso. &nbsp;A minha cautela \u00e9 a de que se a gente n\u00e3o tiver uma vacina muito r\u00e1pido, que a gente comece a ter alternativas. &nbsp;Uma delas \u00e9 ter baixa transmiss\u00e3o. E a gente no Brasil ainda est\u00e1 com uma taxa de transmiss\u00e3o ainda muito elevada na maioria dos locais, o que inviabiliza a volta \u00e0s aulas. &nbsp;N\u00e3o seria uma volta respons\u00e1vel. A gente precisaria reduzir a transmiss\u00e3o. Muitas escolas est\u00e3o se modificando e algumas privadas j\u00e1 anunciaram que est\u00e3o aptas ao retorno. As condi\u00e7\u00f5es escolares isoladas trariam seguran\u00e7a para o retorno dos estudantes?L\u00f3gico que por mais cuidados que as escolas ofere\u00e7am, se voc\u00ea n\u00e3o tiver uma redu\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria vai ter reflexos importantes. Ent\u00e3o, mesmo na escola privada voc\u00ea tem os trabalhadores que n\u00e3o tem a mesma condi\u00e7\u00e3o de transporte dos estudantes e usam transporte p\u00fablico. E essas pessoas podem estar disseminando infec\u00e7\u00e3o. As escolas n\u00e3o existem como uma bolha totalmente separada da comunidade. \u00c9 preciso que haja condi\u00e7\u00f5es compat\u00edveis para que se possa fazer uma prote\u00e7\u00e3o adequada n\u00e3o somente dos alunos, mas tamb\u00e9m de toda comunidade escolar. \u00c9 importante agir coletivamente e n\u00e3o de forma individual nesse processo. A vacina\u00e7\u00e3o em massa significa o fim do risco de contamina\u00e7\u00e3o?A rigor n\u00e3o. O que acontece \u00e9 uma diminui\u00e7\u00e3o grande do risco. O que a gente sempre pondera \u00e9 quanto do risco est\u00e1 disposto a correr. \u00c9 preciso sempre colocar nessa perspectiva. O grande problema \u00e9 que al\u00e9m de ter essas caracter\u00edsticas intr\u00ednsecas, que tenha uma vacina segura, que n\u00e3o agrave a doen\u00e7a. A gente n\u00e3o tem ainda essa vacina, temos bons candidatos, mas n\u00e3o tem ainda. Mas mesmo quando a gente tiver essa vacina a gente n\u00e3o deve esquecer que \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o que o mundo deseja. Nunca teve uma campanha de vacina\u00e7\u00e3o como a gente est\u00e1 prevendo para essa demanda contra a Covid-19. E, al\u00e9m disso, vamos pensar numa hip\u00f3tese de que a vacina n\u00e3o ser\u00e1 em dose \u00fanica. Voc\u00ea ter\u00e1 que ter uma campanha de vacina\u00e7\u00e3o que vai atingir a pessoa para que ela seja vacinada duas vezes. Claramente estamos falando de um esfor\u00e7o enorme, em que podem faltar coisas b\u00e1sicas como seringa, agulha ou coisas desse tipo. Ent\u00e3o, a produ\u00e7\u00e3o para manter a cadeia funcionando em grande volume \u00e9 algo que a gente n\u00e3o tem, e j\u00e1 deveria estar trabalhando nessa log\u00edstica e estimar tudo que a gente deveria &nbsp;precisar. Isso j\u00e1 deveria estar sendo feito. De alguma maneira preparar essa log\u00edstica para uma campanha desse porte. A gente viu que faltaram elementos b\u00e1sicos para atendimento nas UTI\u2019s &nbsp;n\u00e3o s\u00f3 no Brasil como em outros pa\u00edses tamb\u00e9m. E entra tamb\u00e9m a quest\u00e3o de custo. Quanto vai custar essa vacina, como ela vai ser disponibilizada para uma demanda t\u00e3o grande de todo mundo vacinar de uma vez s\u00f3. No sarampo, por exemplo, a cada ano voc\u00ea vacina uma faixa et\u00e1ria espec\u00edfica de crian\u00e7as. Diferentemente dessa que ser\u00e1 para todos. E mesmo no caso de sarampo, que n\u00e3o precisamos fazer [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":2482,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[103],"tags":[],"class_list":["post-2483","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-saude"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2483","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2483"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2483\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2484,"href":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2483\/revisions\/2484"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2482"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2483"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2483"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2483"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}