{"id":2478,"date":"2020-09-23T16:37:19","date_gmt":"2020-09-23T19:37:19","guid":{"rendered":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/?p=2478"},"modified":"2023-08-06T13:49:32","modified_gmt":"2023-08-06T16:49:32","slug":"a-busca-pela-vacina-livre-deve-ser-coletiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/a-busca-pela-vacina-livre-deve-ser-coletiva\/","title":{"rendered":"A busca pela vacina livre deve ser coletiva"},"content":{"rendered":"\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>Pelo mundo, surgem campanhas para que universidades disponibilizem tecnologias de combate \u00e0 covid-19 de forma gratuita \u2014 e n\u00e3o se concentrem em grandes laborat\u00f3rios. No Brasil, UFPel \u00e9 exemplo. UFMG poder\u00e1 ser a pr\u00f3xima. Leia abaixo no artigo de&nbsp;Luciana M. N. Lopes* e Alan Rossi Silva**<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para muitas brasileiras e brasileiros, ir a uma partida de futebol \u00e9 uma experi\u00eancia m\u00e1gica. O ch\u00e3o tremendo. A fuma\u00e7a colorida. As \u2014 MUITAS \u2014 vozes em coro. \u00c9 imposs\u00edvel resistir \u00e0 energia. O cora\u00e7\u00e3o vai \u00e0 boca e para naqueles dois segundos de d\u00favida: vai entrar? E, ent\u00e3o, a explos\u00e3o. O abra\u00e7o intenso no vizinho desconhecido. A alegria comum e contagiante ao ver seu time marcar um gol.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquele 8 de julho de 2014, 99,95% do novo Mineir\u00e3o estava lotado. Milhares de pessoas buscavam a emo\u00e7\u00e3o de ver seu time passar para a final de uma Copa do Mundo jogada em casa. 58.141 cora\u00e7\u00f5es viveram, contudo, um dos epis\u00f3dios mais vergonhosos da hist\u00f3ria do nosso futebol: a goleada de 7\u00d71 da Alemanha. Vimos um pa\u00eds inteiro comovido. Em luto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem imaginaria que, seis anos depois, estar\u00edamos tomando uma goleada infinitamente mais vergonhosa? J\u00e1 s\u00e3o mais de 130 mil cora\u00e7\u00f5es \u2014 mais que o dobro da ocupa\u00e7\u00e3o do Mineir\u00e3o \u2014 que pararam por gols do novo coronav\u00edrus. Estranho \u00e9 n\u00e3o sentir, neste caso, a como\u00e7\u00e3o e o luto do pa\u00eds. Se muitos de n\u00f3s deixamos o campo antes do final da partida, alguns nunca nem entraram: vivem suas vidas como se a batalha decisiva que travamos nunca tivesse come\u00e7ado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com uma defesa desorganizada e vazada, aqueles de n\u00f3s que n\u00e3o abandonaram o time depositam a esperan\u00e7a em nosso ataque: a ci\u00eancia. E os jogadores da ci\u00eancia, mesmo desvalorizados e contestados pelo negacionismo, v\u00eam trabalhando duro para organizarem um ataque veloz. Os esfor\u00e7os globais para a pesquisa e o desenvolvimento de vacinas, medicamentos, diagn\u00f3sticos e outras tecnologias em sa\u00fade s\u00e3o impressionantes e sem precedentes. Em seis meses de pandemia, foram mapeados&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.policycuresresearch.org\/covid-19-r-d-tracker\">mais de 200 estudos<\/a>&nbsp;para desenvolvimento de uma vacina contra a covid-19. Oito deles j\u00e1 est\u00e3o na fase III dos testes em humanos \u2014 a \u00faltima antes do registro sanit\u00e1rio. Quanto mais entrosados os jogadores, mais perto chegamos do gol.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Brasil, todos os nossos jogadores de ataque v\u00eam, praticamente, da mesma categoria de base: a universidade p\u00fablica, que produz 95% da ci\u00eancia do pa\u00eds. Mesmo tendo sido sistematicamente desvalorizadas pelo governo federal nos \u00faltimos anos, nossas universidades p\u00fablicas e seus pesquisadores t\u00eam dado ra\u00e7a em campo e se esfor\u00e7ado, inclusive, para cobrir nossa defesa. Al\u00e9m de buscarem&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.andifes.org.br\/ufmg-lanca-politica-de-inclusao-digital-para-garantir-acesso-ao-ensino-remoto-emergencial\/\">adaptar suas atividades<\/a>&nbsp;ao novo contexto, elas t\u00eam realizado&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.andifes.org.br\/ufop-inicia-testes-de-covid-19-cumprindo-mais-uma-vez-o-papel-da-universidade-publica-na-pandemia\/\">diagn\u00f3sticos<\/a>,&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.andifes.org.br\/ufrgs-integra-pesquisa-que-investigara-fatores-de-risco-para-contaminacao-da-covid-19-em-porto-alegre\/\">investiga\u00e7\u00f5es epidemiol\u00f3gicas<\/a>&nbsp;e&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.andifes.org.br\/ufs-projeto-de-extensao-edita-cartilha-de-prevencao-a-covid-19-para-comunidades\/\">campanhas de conscientiza\u00e7\u00e3o<\/a>, bem como tomado medidas para&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.andifes.org.br\/unb-cria-solucao-tecnologica-para-viabilizar-retorno-as-aulas-na-rede-publica-do-df\/\">minimizar os danos causados pela pandemia<\/a>&nbsp;e&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.andifes.org.br\/ufpa-abre-inscricao-para-auxilio-emergencial-alimentacao-para-estudantes\/\">reduzir as desigualdades sociais<\/a>&nbsp;por ela intensificadas. Al\u00e9m disso, s\u00e3o cada vez mais numerosas as iniciativas que visam a pesquisar, desenvolver e distribuir&nbsp;<a href=\"https:\/\/ufmg.br\/comunicacao\/noticias\/combate-a-covid-19-gerou-tres-pedidos-de-patentes-na-ufmg\">Equipamentos de Prote\u00e7\u00e3o Individual (EPI)<\/a>,&nbsp;<a href=\"http:\/\/portal.uern.br\/blog\/professores-e-estudantes-de-quimica-finalizam-projeto-de-combate-a-covid-19-com-distribuicao-de-solucao-sanitizante\/\">sanitizantes<\/a>,&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.andifes.org.br\/covid-19-ufrj-testa-com-sucesso-ventilador-de-excecao-em-pacientes\/\">ventiladores<\/a>,&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.andifes.org.br\/ufpb-pesquisadores-da-ufpb-buscam-evidencias-de-remedio-natural-para-covid-19\/\">medicamentos<\/a>&nbsp;e&nbsp;<a href=\"https:\/\/www2.ufjf.br\/noticias\/2020\/07\/01\/ufjf-entra-em-corrida-cientifica-para-criacao-de-vacina-contra-o-coronavirus\/\">vacinas<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Os s\u00f3cios-torcedores e o jogador mercen\u00e1rio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o mais de&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.policycuresresearch.org\/covid-19-r-d-tracker\">23 milh\u00f5es de d\u00f3lares<\/a>&nbsp;investidos por \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos em estudos relacionados \u00e0 Covid-19 no Brasil. N\u00f3s, enquanto s\u00f3cios-torcedores, participamos desta aplica\u00e7\u00e3o. Mas investimos pouco em nossos jogadores, se comparado aos pa\u00edses ricos: no mundo, h\u00e1 mais de US$ 5 bilh\u00f5es \u2014 grande parte, dinheiro p\u00fablico \u2014 dedicados ao desenvolvimento de uma vacina. Afinal, a ampla imuniza\u00e7\u00e3o mundial seria o gol de placa na disputa contra o novo coronav\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse sentido, cabe destacar que a maioria das pesquisas b\u00e1sicas relacionadas a vacinas \u00e9 desenvolvida em universidades e laborat\u00f3rios p\u00fablicos. N\u00f3s, os s\u00f3cio-torcedores, investimos nas pesquisas quando h\u00e1 grandes incertezas sobre os resultados. J\u00e1 as farmac\u00eauticas multinacionais costumam atuar como aquele jogador que fica \u201cna banheira\u201d esperando a bola chegar em seu p\u00e9: elas se envolvem nas \u00faltimas etapas do desenvolvimento, quando os riscos s\u00e3o bem menores e o retorno financeiro \u00e9 potencializado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de essas empresas dizerem que est\u00e3o no nosso time, n\u00e3o nos deixemos enganar. Sua maior preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 com a vit\u00f3ria coletiva, mas com a gl\u00f3ria e com o patroc\u00ednio individual \u2014 querem ser os \u00fanicos a marcar e fazem isso atrav\u00e9s de monop\u00f3lios sobre as tecnologias, como vacinas e medicamentos, definindo o pre\u00e7o que querem. Mas, em decis\u00f5es como a atual, em que a vit\u00f3ria significa salvar vidas, n\u00e3o dever\u00edamos depender de um jogador que v\u00ea a disputa como fonte de lucro\u2026 Estamos na final e n\u00e3o h\u00e1 tempo para mercen\u00e1rios. Os campeonatos anteriores, como aqueles disputados em torno do HIV\/Aids e da Hepatite C, nos lembram que, quando a estrat\u00e9gia individual se sobrep\u00f5e \u00e0 coletiva, somos levados a, no m\u00e1ximo, disputar, cansados, longas prorroga\u00e7\u00f5es desnecess\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acontece que nossas universidades, muitas vezes, fazem acordos para s\u00f3 tocar a bola para esse jogador mesquinho. A conhecida \u201cvacina de Oxford\u201d \u00e9 um exemplo disso. Apesar de ter sido desenvolvida por uma universidade, com muito dinheiro p\u00fablico, as condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o dessa tecnologia est\u00e3o inteiramente nos p\u00e9s de uma \u00fanica empresa farmac\u00eautica \u2014 a AstraZeneca. H\u00e1 v\u00e1rios jogadores livres, na cara do gol, implorando para receber a bola e fazer a alegria da torcida. Entretanto, este ataque veloz, que poderia resultar em um dos gols mais espetaculares da hist\u00f3ria,&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/commentisfree\/2020\/jul\/23\/world-needs-coronavirus-vaccine-big-pharma-monopoly-astrazeneca-patent-pandemic\">pode ser impedido por um jogador \u201cfominha\u201d<\/a>. Nesse sentido, questionamos se o&nbsp;<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outrasaude\/acordomaisperto\/\">investimento antecipado de mais de R$ 1 bilh\u00e3o<\/a>&nbsp;dos s\u00f3cios-torcedores brasileiros nessa tecnologia&nbsp;<a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/direitosouprivilegios\/o-brasil-aceitara-reduzir-se-a-cobaia\/\">ainda em testes<\/a>&nbsp;n\u00e3o refletiria um receio de sermos jogados para escanteio na&nbsp;<a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/sera-que-o-brasil-vai-ter-acesso-a-vacina-contra-o-novo-coronavirus\/\">fila do acesso \u00e0 vacina<\/a>, caso ela se comprove eficaz. Ali\u00e1s, ser\u00e1 que essa fila existiria caso a vacina pudesse ser livremente produzida e distribu\u00edda?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caso das vacinas, assim como o das&nbsp;<a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/doencas-sao-neglicenciadas-pela-industria-farmaceutica\/\">doen\u00e7as negligenciadas<\/a>, evidencia o papel essencial das universidades e institutos p\u00fablicos de pesquisa, que t\u00eam compromisso com o time e n\u00e3o consigo mesmos. Devem, assim, estar atentos a sua fun\u00e7\u00e3o social como centros de produ\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o do conhecimento, especialmente quando o conhecimento \u00e9 nossa estrat\u00e9gia de ataque. Diante disso, estudantes, pesquisadores, artistas e ativistas de 29 pa\u00edses se juntaram na campanha global&nbsp;<a href=\"https:\/\/freethevaccine.org\/apoie-uma-vacina-do-povo\/\">#FreeTheVaccine<\/a>, que convoca diversas universidades do mundo a disponibilizarem amplamente seus conhecimentos contra a covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A bela jogada da UFPel<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, alguns lances vistos por aqui despertam nossa paix\u00e3o e acendem a esperan\u00e7a de trazermos o trof\u00e9u para casa. Al\u00e9m de conduzir o&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.andifes.org.br\/ufpel-epicovid19-br-divulga-novos-resultados-sobre-o-coronavirus-no-brasil\/\">estudo epidemiol\u00f3gico com o maior n\u00famero de indiv\u00edduos testados do mundo para o coronav\u00edrus<\/a>, a Universidade Federal de Pelotas (UFPel) entrou em campo com garra e lan\u00e7ou uma modalidade de licenciamento de patentes e transfer\u00eancia de tecnologia completamente gratuita. Segundo a&nbsp;<a href=\"https:\/\/wp.ufpel.edu.br\/cit\/2020\/04\/15\/ufpel-ira-licenciar-patentes-e-transferir-tecnologias-relacionadas-a-covid-19-de-forma-gratuita\/\">portaria 732\/2020<\/a>, o compartilhamento de tecnologias \u00fateis no combate \u00e0 covid-19 poder\u00e1 ser feito de forma n\u00e3o exclusiva e sem recebimento de royalties pela institui\u00e7\u00e3o. Ou seja, al\u00e9m de poder tocar a bola para diversos jogadores, a UFPel n\u00e3o precisa cobrar pelos toques. Em contrapartida, os receptores da tecnologia dever\u00e3o distribuir os seus produtos de forma ampla e com pre\u00e7o abaixo do mercado. Jogada de craque!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Brasil, um pa\u00eds marcado por iniquidades escancaradas neste campeonato,&nbsp;<a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/saude\/noticia\/2020-08\/soros-produzidos-por-cavalos-tem-anticorpos-potentes-para-covid-19\">jogadas assim s\u00e3o important\u00edssimas<\/a>. E outras universidades, como a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), t\u00eam sido convidadas a trein\u00e1-las. Posicionada ao lado do Mineir\u00e3o, a UFMG tamb\u00e9m pode assumir uma posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica na organiza\u00e7\u00e3o do nosso ataque: ela \u00e9 a maior depositante de patentes em biotecnologia do Brasil. Por meio de uma campanha intitulada&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.em.com.br\/app\/noticia\/gerais\/2020\/05\/11\/interna_gerais,1146327\/proposta-de-quebra-de-patentes-no-combate-a-covid-19-e-entregue-a-reit.shtml\">\u201cConhecimento sem cortes e sem monop\u00f3lio\u201d<\/a>, a universidade, que licencia a maioria de suas patentes de forma n\u00e3o exclusiva, foi convocada por sua comunidade a tamb\u00e9m firmar o compromisso de jogar pelo coletivo no campeonato contra a covid-19. Elencada, recentemente, em um ranking internacional como a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.hojeemdia.com.br\/horizontes\/ranking-internacional-aponta-ufmg-como-a-5%C2%AA-melhor-universidade-na-am%C3%A9rica-latina-1.794436\">5\u00aa melhor universidade da Am\u00e9rica Latina<\/a>, uma jogada da UFMG nesse sentido ajudaria a inspirar outros jogadores \u2014 nacionais e internacionais \u2014 a vestirem a camisa e tocarem mais a bola.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em todo o mundo, a torcida grita por uma&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.unaids.org\/en\/resources\/presscentre\/pressreleaseandstatementarchive\/2020\/may\/20200514_covid19-vaccine\">\u201cvacina do povo\u201d<\/a>&nbsp;amplamente acess\u00edvel. E v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es fizeram discursos nesse sentido. S\u00f3 que discursos, quando n\u00e3o acompanhados de a\u00e7\u00e3o, s\u00e3o apenas bolas na trave. E \u201cbola na trave n\u00e3o altera o placar\u201d. Para virar o jogo contra a covid-19, precisamos chegar ao gol. E n\u00e3o chegaremos se continuarmos deixando que a grande ind\u00fastria farmac\u00eautica, localizada majoritariamente nos pa\u00edses ricos, continue monopolizando a bola.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O jogo est\u00e1 s\u00f3 come\u00e7ando<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No futebol, as jogadoras e os jogadores brasileiros s\u00e3o refer\u00eancia. J\u00e1 no campeonato contra a covid-19, mesmo que o nosso Sistema \u00danico de Sa\u00fade tenha desempenhado um papel fundamental em nos manter, literalmente, vivos na batalha, somos um dos pa\u00edses na lanterna. Apesar disso, as diversas iniciativas para fortalecer o nosso ataque \u2014 com destaque para o&nbsp;<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2020\/04\/projeto-para-quebrar-patente-em-razao-da-covid-19-une-pt-a-base-de-bolsonaro.shtml\">Projeto de Lei 1462\/2020<\/a>, que tira a ind\u00fastria farmac\u00eautica nacional do impedimento \u2014 indicam que h\u00e1 espa\u00e7o para assumirmos o protagonismo e inspirarmos todo o mundo com jogadas dignas de replay.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A covid-19 mostra que precisamos rever a forma como n\u00f3s, enquanto sociedade, jogamos. Ela est\u00e1 ganhando de lavada, fora o baile. At\u00e9 a premia\u00e7\u00e3o do Bola de Ouro, que acontece desde 1956 e coroa os melhores jogadores do futebol mundial,&nbsp;<a href=\"https:\/\/globoesporte.globo.com\/futebol\/futebol-internacional\/noticia\/france-football-cancela-bola-de-ouro-de-2020-a-melhor-jogador-do-mundo.ghtml\">foi cancelada em 2020 devido \u00e0 pandemia<\/a>. Contudo, muitas institui\u00e7\u00f5es continuam agindo como se estiv\u00e9ssemos jogando um amistoso e n\u00e3o uma final de Copa do Mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o jogo est\u00e1 longe de acabar e as not\u00edcias sobre vacinas promissoras nos mostram que ainda podemos virar. N\u00e3o \u00e9 hora de cumprir tabela e nem de desistir do campeonato. \u00c9 hora de a gente vestir a m\u00e1scara e cantar o mais alto poss\u00edvel; empurrar o time; fazer o ch\u00e3o tremer; pedir substitui\u00e7\u00f5es e deixar claro que n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para jogadores sem amor \u00e0 camisa, que fazem da pandemia e de nossas vidas uma oportunidade para lucros abusivos. O que a gente quer \u00e9 ra\u00e7a \u2014 do time todo. O que a gente quer \u00e9 gol e abra\u00e7o. E s\u00f3 um time que joga junto pode nos proporcionar a alegria da vit\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">*Luciana M. N. Lopes e **Alan Rossi Silva representam a Universidades Aliadas por Medicamentos Essenciais (UAEM), uma organiza\u00e7\u00e3o global de estudantes em defesa do acesso universal a medicamentos e de um sistema de inova\u00e7\u00e3o biom\u00e9dico justo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Fonte: OutrasPalavras<\/em><br><em>Publicado em 22\/09\/2020<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pelo mundo, surgem campanhas para que universidades disponibilizem tecnologias de combate \u00e0 covid-19 de forma gratuita \u2014 e n\u00e3o se concentrem em grandes laborat\u00f3rios. No Brasil, UFPel \u00e9 exemplo. UFMG poder\u00e1 ser a pr\u00f3xima. Leia abaixo no artigo de&nbsp;Luciana M. N. Lopes* e Alan Rossi Silva** Para muitas brasileiras e brasileiros, ir a uma partida de futebol \u00e9 uma experi\u00eancia m\u00e1gica. O ch\u00e3o tremendo. A fuma\u00e7a colorida. As \u2014 MUITAS \u2014 vozes em coro. \u00c9 imposs\u00edvel resistir \u00e0 energia. O cora\u00e7\u00e3o vai \u00e0 boca e para naqueles dois segundos de d\u00favida: vai entrar? E, ent\u00e3o, a explos\u00e3o. O abra\u00e7o intenso no vizinho desconhecido. A alegria comum e contagiante ao ver seu time marcar um gol. Naquele 8 de julho de 2014, 99,95% do novo Mineir\u00e3o estava lotado. Milhares de pessoas buscavam a emo\u00e7\u00e3o de ver seu time passar para a final de uma Copa do Mundo jogada em casa. 58.141 cora\u00e7\u00f5es viveram, contudo, um dos epis\u00f3dios mais vergonhosos da hist\u00f3ria do nosso futebol: a goleada de 7\u00d71 da Alemanha. Vimos um pa\u00eds inteiro comovido. Em luto. Quem imaginaria que, seis anos depois, estar\u00edamos tomando uma goleada infinitamente mais vergonhosa? J\u00e1 s\u00e3o mais de 130 mil cora\u00e7\u00f5es \u2014 mais que o dobro da ocupa\u00e7\u00e3o do Mineir\u00e3o \u2014 que pararam por gols do novo coronav\u00edrus. Estranho \u00e9 n\u00e3o sentir, neste caso, a como\u00e7\u00e3o e o luto do pa\u00eds. Se muitos de n\u00f3s deixamos o campo antes do final da partida, alguns nunca nem entraram: vivem suas vidas como se a batalha decisiva que travamos nunca tivesse come\u00e7ado. Com uma defesa desorganizada e vazada, aqueles de n\u00f3s que n\u00e3o abandonaram o time depositam a esperan\u00e7a em nosso ataque: a ci\u00eancia. E os jogadores da ci\u00eancia, mesmo desvalorizados e contestados pelo negacionismo, v\u00eam trabalhando duro para organizarem um ataque veloz. Os esfor\u00e7os globais para a pesquisa e o desenvolvimento de vacinas, medicamentos, diagn\u00f3sticos e outras tecnologias em sa\u00fade s\u00e3o impressionantes e sem precedentes. Em seis meses de pandemia, foram mapeados&nbsp;mais de 200 estudos&nbsp;para desenvolvimento de uma vacina contra a covid-19. Oito deles j\u00e1 est\u00e3o na fase III dos testes em humanos \u2014 a \u00faltima antes do registro sanit\u00e1rio. Quanto mais entrosados os jogadores, mais perto chegamos do gol. No Brasil, todos os nossos jogadores de ataque v\u00eam, praticamente, da mesma categoria de base: a universidade p\u00fablica, que produz 95% da ci\u00eancia do pa\u00eds. Mesmo tendo sido sistematicamente desvalorizadas pelo governo federal nos \u00faltimos anos, nossas universidades p\u00fablicas e seus pesquisadores t\u00eam dado ra\u00e7a em campo e se esfor\u00e7ado, inclusive, para cobrir nossa defesa. Al\u00e9m de buscarem&nbsp;adaptar suas atividades&nbsp;ao novo contexto, elas t\u00eam realizado&nbsp;diagn\u00f3sticos,&nbsp;investiga\u00e7\u00f5es epidemiol\u00f3gicas&nbsp;e&nbsp;campanhas de conscientiza\u00e7\u00e3o, bem como tomado medidas para&nbsp;minimizar os danos causados pela pandemia&nbsp;e&nbsp;reduzir as desigualdades sociais&nbsp;por ela intensificadas. Al\u00e9m disso, s\u00e3o cada vez mais numerosas as iniciativas que visam a pesquisar, desenvolver e distribuir&nbsp;Equipamentos de Prote\u00e7\u00e3o Individual (EPI),&nbsp;sanitizantes,&nbsp;ventiladores,&nbsp;medicamentos&nbsp;e&nbsp;vacinas. Os s\u00f3cios-torcedores e o jogador mercen\u00e1rio S\u00e3o mais de&nbsp;23 milh\u00f5es de d\u00f3lares&nbsp;investidos por \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos em estudos relacionados \u00e0 Covid-19 no Brasil. N\u00f3s, enquanto s\u00f3cios-torcedores, participamos desta aplica\u00e7\u00e3o. Mas investimos pouco em nossos jogadores, se comparado aos pa\u00edses ricos: no mundo, h\u00e1 mais de US$ 5 bilh\u00f5es \u2014 grande parte, dinheiro p\u00fablico \u2014 dedicados ao desenvolvimento de uma vacina. Afinal, a ampla imuniza\u00e7\u00e3o mundial seria o gol de placa na disputa contra o novo coronav\u00edrus. Nesse sentido, cabe destacar que a maioria das pesquisas b\u00e1sicas relacionadas a vacinas \u00e9 desenvolvida em universidades e laborat\u00f3rios p\u00fablicos. N\u00f3s, os s\u00f3cio-torcedores, investimos nas pesquisas quando h\u00e1 grandes incertezas sobre os resultados. J\u00e1 as farmac\u00eauticas multinacionais costumam atuar como aquele jogador que fica \u201cna banheira\u201d esperando a bola chegar em seu p\u00e9: elas se envolvem nas \u00faltimas etapas do desenvolvimento, quando os riscos s\u00e3o bem menores e o retorno financeiro \u00e9 potencializado. Apesar de essas empresas dizerem que est\u00e3o no nosso time, n\u00e3o nos deixemos enganar. Sua maior preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 com a vit\u00f3ria coletiva, mas com a gl\u00f3ria e com o patroc\u00ednio individual \u2014 querem ser os \u00fanicos a marcar e fazem isso atrav\u00e9s de monop\u00f3lios sobre as tecnologias, como vacinas e medicamentos, definindo o pre\u00e7o que querem. Mas, em decis\u00f5es como a atual, em que a vit\u00f3ria significa salvar vidas, n\u00e3o dever\u00edamos depender de um jogador que v\u00ea a disputa como fonte de lucro\u2026 Estamos na final e n\u00e3o h\u00e1 tempo para mercen\u00e1rios. Os campeonatos anteriores, como aqueles disputados em torno do HIV\/Aids e da Hepatite C, nos lembram que, quando a estrat\u00e9gia individual se sobrep\u00f5e \u00e0 coletiva, somos levados a, no m\u00e1ximo, disputar, cansados, longas prorroga\u00e7\u00f5es desnecess\u00e1rias. Acontece que nossas universidades, muitas vezes, fazem acordos para s\u00f3 tocar a bola para esse jogador mesquinho. A conhecida \u201cvacina de Oxford\u201d \u00e9 um exemplo disso. Apesar de ter sido desenvolvida por uma universidade, com muito dinheiro p\u00fablico, as condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o dessa tecnologia est\u00e3o inteiramente nos p\u00e9s de uma \u00fanica empresa farmac\u00eautica \u2014 a AstraZeneca. H\u00e1 v\u00e1rios jogadores livres, na cara do gol, implorando para receber a bola e fazer a alegria da torcida. Entretanto, este ataque veloz, que poderia resultar em um dos gols mais espetaculares da hist\u00f3ria,&nbsp;pode ser impedido por um jogador \u201cfominha\u201d. Nesse sentido, questionamos se o&nbsp;investimento antecipado de mais de R$ 1 bilh\u00e3o&nbsp;dos s\u00f3cios-torcedores brasileiros nessa tecnologia&nbsp;ainda em testes&nbsp;n\u00e3o refletiria um receio de sermos jogados para escanteio na&nbsp;fila do acesso \u00e0 vacina, caso ela se comprove eficaz. Ali\u00e1s, ser\u00e1 que essa fila existiria caso a vacina pudesse ser livremente produzida e distribu\u00edda? O caso das vacinas, assim como o das&nbsp;doen\u00e7as negligenciadas, evidencia o papel essencial das universidades e institutos p\u00fablicos de pesquisa, que t\u00eam compromisso com o time e n\u00e3o consigo mesmos. Devem, assim, estar atentos a sua fun\u00e7\u00e3o social como centros de produ\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o do conhecimento, especialmente quando o conhecimento \u00e9 nossa estrat\u00e9gia de ataque. Diante disso, estudantes, pesquisadores, artistas e ativistas de 29 pa\u00edses se juntaram na campanha global&nbsp;#FreeTheVaccine, que convoca diversas universidades do mundo a disponibilizarem amplamente seus conhecimentos contra a covid-19. A bela jogada da UFPel Assim, alguns lances vistos por aqui despertam nossa paix\u00e3o e acendem a esperan\u00e7a de trazermos o trof\u00e9u para casa. 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