{"id":2285,"date":"2020-05-21T15:35:20","date_gmt":"2020-05-21T18:35:20","guid":{"rendered":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/?p=2285"},"modified":"2023-08-06T13:51:23","modified_gmt":"2023-08-06T16:51:23","slug":"gilead-o-brasil-excluido-no-enfrentamento-da-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/sinfaerj.org.br\/old\/gilead-o-brasil-excluido-no-enfrentamento-da-pandemia\/","title":{"rendered":"Gilead: o Brasil exclu\u00eddo no enfrentamento da pandemia"},"content":{"rendered":"\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>A hist\u00f3ria se repete em ciclos! A farmac\u00eautica americana Gilead, uma empresa predadora, exclui o Brasil de um potencial tratamento da Covid-19. Esperada&nbsp;por muitos, visto ceticamente por outros, essa postura tem, surpreendentemente, a ajuda de organiza\u00e7\u00f5es brasileiras de ind\u00fastria farmac\u00eautica e propriedade intelectual. Leia no artigo de&nbsp;\u2013 por Jorge Bermudez e Achal Prabhala.<\/em><\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em artigo recente, alertamos que qualquer tratamento potencial para a Covid-19, se fosse produto novo, protegido por patente, teria o acesso dificultado nos pa\u00edses de renda m\u00e9dia \u2013 como j\u00e1 ocorre em outros casos, que levaram \u00e0s licen\u00e7as volunt\u00e1rias para um&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.cee.fiocruz.br\/?q=node\/24\">pool de patentes de medicamentos<\/a>. Essa dificuldade de acesso pode acontecer, apesar da solu\u00e7\u00e3o multilateral do pool de patentes de tecnologias relacionadas \u00e0 Covid-19 solicitado pela Costa Rica e atualmente sob o escrut\u00ednio da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A trilha de senso humanit\u00e1rio da Gilead \u00e9 bem conhecida. Como detentora da patente do sofosbuvir, o primeiro antiviral de a\u00e7\u00e3o direta licenciado (DAA), eficaz na cura da hepatite C, lan\u00e7ou o medicamento no final de 2013 ao custo de US$ 84 mil por tratamento (12 semanas ou 84 dias). Foi chamado, assim, de&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.cee.fiocruz.br\/?q=node\/244\">p\u00edlula de mil d\u00f3lares<\/a>. Ap\u00f3s reclama\u00e7\u00f5es e falta de acessibilidade n\u00e3o apenas de pa\u00edses pobres, a Gilead anunciou em setembro de 2014 contratos de licenciamento com sete fabricantes de gen\u00e9ricos indianos, oferecendo um pre\u00e7o de acesso de US$ 900 por tratamento, em um escopo de 91 pa\u00edses de baixa e m\u00e9dia renda, cobrindo quase 100 milh\u00f5es de pessoas, mas excluindo 49 milh\u00f5es em pa\u00edses de renda m\u00e9dia (ver&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.cee.fiocruz.br\/?q=Patente-sofosbuvir-entre-o-com%C3%A9rcio-e-o-direito-%C3%A0-cura%E2%80%93por-Jorge-Bermudez\">aqui<\/a>&nbsp;e&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.cee.fiocruz.br\/sites\/default\/files\/brookbaker09172014%20%282%29.pdf\">aqui<\/a>).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa exclus\u00e3o alcan\u00e7ou o Brasil, onde foi estabelecida uma negocia\u00e7\u00e3o bilateral, trazendo o pre\u00e7o para cerca de US$ 6 mil por tratamento. Como as reivindica\u00e7\u00f5es de patentes da Gilead estavam em avalia\u00e7\u00e3o no INPI, escrit\u00f3rio de patentes no Brasil, um acordo de coopera\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica envolvendo a Fiocruz e um cons\u00f3rcio de empresas privadas nacionais desenvolveu a vers\u00e3o gen\u00e9rica do sofosbuvir. No entanto, as demandas judiciais da Gilead bloquearam a possibilidade de que essa vers\u00e3o mais barata e bioequivalente abastecesse o sistema nacional de sa\u00fade (SUS) (ver&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.cee.fiocruz.br\/?q=node\/899\">aqui<\/a>).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atualmente, o Brasil enfrenta o dilema de ter ou n\u00e3o acesso a um dos medicamentos em potencial que podem ser utilizados no tratamento do Covid-19, o Remdesivir da Gilead, um dos produtos submetidos a v\u00e1rios ensaios, incluindo o&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.who.int\/emergencies\/diseases\/novel-coronavirus-2019\/global-research-on-novel-coronavirus-2019-ncov\/solidarity-clinical-trial-for-covid-19-treatments\">Solidarity Trial<\/a>&nbsp;da OMS. O Remdesivir acaba de receber a Autoriza\u00e7\u00e3o de Uso Emergencial pelo FDA dos EUA para o tratamento da Covid-19, permitindo um uso mais amplo no tratamento de pacientes hospitalizados. Essa autoriza\u00e7\u00e3o, com base na gravidade da doen\u00e7a dos pacientes, foi&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.cee.fiocruz.br\/sites\/default\/files\/Gileadtraducao%20port.%20%282%29.docx\">anunciada pela Gilead&nbsp;<\/a>em 1\u00ba de maio de 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Considerando que a Gilead est\u00e1 registrando patentes de Remdesivir em quase 70 pa\u00edses para garantir o monop\u00f3lio, eles acabaram de anunciar que assinaram o que chamam de \u201cacordos de licenciamento volunt\u00e1rio n\u00e3o exclusivos, com cinco fabricantes de medicamentos gen\u00e9ricos baseados na \u00cdndia e no Paquist\u00e3o, para expandir ainda mais o suprimento de Remdsivir\u201d. A Cipla Ltd., Ferzsons Laboratories, H\u00e9tero Labs Ltd., Jubilant Lifesciences e Mylan est\u00e3o autorizadas a fabricar Remdsivir para distribui\u00e7\u00e3o em 127 pa\u00edses com um escopo geogr\u00e1fico definido pela Gilead, principalmente de renda baixa e m\u00e9dio-baixa e estabelecendo seus pr\u00f3prios pre\u00e7os.&nbsp;Como previmos em nosso&nbsp;<a href=\"https:\/\/cee.fiocruz.br\/?q=node\/1172\">artigo recente<\/a>, j\u00e1 mencionado, a menos que outras medidas sejam tomadas \u2013 caso de pa\u00edses como Canad\u00e1, Alemanha, Israel, Chile, Peru e Equador \u2013, o Brasil pode ficar preso na armadilha da Gilead de exclus\u00e3o do monop\u00f3lio. Com essa vis\u00e3o, um grupo suprapartid\u00e1rio de deputados submeteu um projeto de lei ao Congresso (PL 1462\/2020), alterando a atual Lei da Propriedade Industrial; o objetivo \u00e9 propor licen\u00e7as compuls\u00f3rias autom\u00e1ticas para tecnologias relacionadas ao Covid-19, justificadas pela declara\u00e7\u00e3o nacional e\/ou global de emerg\u00eancia de sa\u00fade devido \u00e0 pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atualmente, o Brasil enfrenta o dilema de ter ou n\u00e3o acesso a um dos medicamentos em potencial que podem ser utilizados no tratamento do Covid-19, o Remdesivir da Gilead<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pareceria que, no interesse de garantir o acesso e salvar vidas, seria naturalmente esperado discutir, aprovar e implementar essa proposta, apoiada pelo Conselho Nacional de Sa\u00fade e recebendo forte apoio internacional. No entanto, ficamos chocados ao ler as rea\u00e7\u00f5es que se seguiram \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o do projeto de lei. A Interfarma, representa\u00e7\u00e3o corporativa de empresas farmac\u00eauticas multinacionais, reagiu listando os benef\u00edcios do arcabou\u00e7o legal atual da propriedade intelectual no Brasil, promovendo a inova\u00e7\u00e3o e garantindo benef\u00edcios legais em diferentes segmentos industriais (ver&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.cee.fiocruz.br\/sites\/default\/files\/Nota-t%C3%A9cnica-Interfarma-Licen%C3%A7a-Compuls%C3%B3ria_draft-002-1.pdf\">aqui<\/a>). Mencionando a alega\u00e7\u00e3o da IFPMA [Facts and Figures 2017] de que cada novo produto inovador no mercado corresponde ao investimento de um bilh\u00e3o de d\u00f3lares, 6 mil tentativas, 400 pesquisadores e uma m\u00e9dia de dez anos, eles exortam a necessidade de proteger e incentivar a ind\u00fastria farmac\u00eautica para garantir o desenvolvimento de produtos e o bem-estar das pessoas. O posicionamento termina com a chamada para n\u00e3o enfraquecer o sistema da propriedade industrial e, portanto, n\u00e3o concordando com a proposta inclu\u00edda no projeto de lei. Nada estranho, vindo deles.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ABPI [Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Propriedade Intelectual] veio com&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.cee.fiocruz.br\/sites\/default\/files\/Of%C3%ADcio%20ABPI%20N%C2%BA%2009_mar%C3%A7o_2020_%20C%C3%A2mara_dos_Deputados%20-%20Assinado.pdf\">documento na mesma linha<\/a>, concluindo que o projeto de lei, assim como os que o originaram, desconsidera a legisla\u00e7\u00e3o vigente e os acordos internacionais dos quais o Brasil \u00e9 signat\u00e1rio, trazendo tamb\u00e9m inseguran\u00e7a. Esse artigo tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma surpresa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pareceria que, no interesse de garantir o acesso ao Remdesivir e salvar vidas, seria naturalmente esperado discutir, aprovar e implementar a proposta do PL 1462\/2020, apoiado&nbsp;pelo Conselho Nacional de Sa\u00fade e recebendo forte apoio internacional.&nbsp;No entanto, ficamos chocados ao ler as rea\u00e7\u00f5es que se seguiram \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o do projeto de lei<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por outro lado, uma nota t\u00e9cnica da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidad\u00e3o analisa o Projeto de Lei (PL 1462\/2020), confronta os direitos individuais versus direitos coletivos, discute o Acordo Trips da OMC e os monop\u00f3lios, a Declara\u00e7\u00e3o de Doha sobre o Acordo Trips e a sa\u00fade p\u00fablica, concluindo que, sem lugar a d\u00favidas, o PL 1462\/2020 est\u00e1 em absoluta conformidade com nossa Constitui\u00e7\u00e3o Federal, n\u00e3o apresenta disfun\u00e7\u00e3o com nossa atual Lei de Propriedade Industrial e est\u00e1 em conformidade com quest\u00f5es internacionais relacionadas a direitos de propriedade intelectual e suas intera\u00e7\u00f5es com a sa\u00fade p\u00fablica (ver&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.cee.fiocruz.br\/sites\/default\/files\/note-tecnica-10-2020-pfdc-mpf-PGR-00170819.2020.pdf\">aqui<\/a>).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A surpresa, em termos, ficou por conta de uma&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.cee.fiocruz.br\/sites\/default\/files\/Nota%20T%C3%A9cnica%20-%20Licenciamento%20compuls%C3%B3rio%20PL%201184_20%201462_20%201320_20.pdf\">Nota T\u00e9cnica&nbsp;<\/a>proveniente dos fabricantes privados nacionais, representados corporativamente pela FarmaBrasil, com argumentos fr\u00e1geis e invocando organiza\u00e7\u00f5es governamentais que ficariam encarregadas de lidar com uma vis\u00e3o estrat\u00e9gica da propriedade intelectual dentro da estrutura atual. A senten\u00e7a final est\u00e1 se manifestando contr\u00e1ria a todos os projetos de lei propostos, alinhando-se, portanto, a outros opositores do licenciamento compuls\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Devemos considerar que o atual governo est\u00e1 negando a seriedade da pandemia devida ao coronav\u00edrus. O presidente da FarmaBrasil fez parte recentemente de um grupo de 15 empres\u00e1rios que se uniram ao presidente da Rep\u00fablica em uma visita ao STF, em 7 de maio passado (ver aqui), que tinha como principal objetivo reclamar da necessidade de continuar o distanciamento social \/confinamento, que atualmente \u00e9 uma medida mundial para a conten\u00e7\u00e3o da pandemia, e defesa da abertura do com\u00e9rcio, ignorando o fato de o Brasil j\u00e1 contar com mais de 12.400 mortes e 178.000 casos da Covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria se repete em ciclos! Quais ser\u00e3o as li\u00e7\u00f5es aprendidas no Brasil e repassadas para nossas futuras gera\u00e7\u00f5es? Uma hist\u00f3ria de dolorosa resist\u00eancia, compromisso com salvar vidas e garantir o acesso a todos? Ou teremos a gan\u00e2ncia se superpondo \u00e0 necessidade, negando a pandemia e deixando muitos para tr\u00e1s?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>*Jorge Bermudez \u00e9 pesquisador s\u00eanior da Escola Nacional de Sa\u00fade P\u00fablica Sergio Arouca (Ensp\/Fiocruz), Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, Brasil. Foi membro do Painel de Alto N\u00edvel do Secret\u00e1rio-Geral da ONU sobre Acesso a Medicamentos e atuou como diretor executivo da Unitaid, em Genebra, Su\u00ed\u00e7a, entre 2007-2011.<\/em><br><em>**Achal Prabhala \u00e9 membro da Funda\u00e7\u00e3o Shuttleworth e coordenador do projeto AccessIBSA, que faz campanhas para acesso a medicamentos na \u00cdndia, Brasil e \u00c1frica do Sul.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Fonte: Fiocruz<\/em><br><em>Publicado em 18\/05\/2020<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria se repete em ciclos! A farmac\u00eautica americana Gilead, uma empresa predadora, exclui o Brasil de um potencial tratamento da Covid-19. Esperada&nbsp;por muitos, visto ceticamente por outros, essa postura tem, surpreendentemente, a ajuda de organiza\u00e7\u00f5es brasileiras de ind\u00fastria farmac\u00eautica e propriedade intelectual. Leia no artigo de&nbsp;\u2013 por Jorge Bermudez e Achal Prabhala. Em artigo recente, alertamos que qualquer tratamento potencial para a Covid-19, se fosse produto novo, protegido por patente, teria o acesso dificultado nos pa\u00edses de renda m\u00e9dia \u2013 como j\u00e1 ocorre em outros casos, que levaram \u00e0s licen\u00e7as volunt\u00e1rias para um&nbsp;pool de patentes de medicamentos. Essa dificuldade de acesso pode acontecer, apesar da solu\u00e7\u00e3o multilateral do pool de patentes de tecnologias relacionadas \u00e0 Covid-19 solicitado pela Costa Rica e atualmente sob o escrut\u00ednio da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade. A trilha de senso humanit\u00e1rio da Gilead \u00e9 bem conhecida. Como detentora da patente do sofosbuvir, o primeiro antiviral de a\u00e7\u00e3o direta licenciado (DAA), eficaz na cura da hepatite C, lan\u00e7ou o medicamento no final de 2013 ao custo de US$ 84 mil por tratamento (12 semanas ou 84 dias). Foi chamado, assim, de&nbsp;p\u00edlula de mil d\u00f3lares. Ap\u00f3s reclama\u00e7\u00f5es e falta de acessibilidade n\u00e3o apenas de pa\u00edses pobres, a Gilead anunciou em setembro de 2014 contratos de licenciamento com sete fabricantes de gen\u00e9ricos indianos, oferecendo um pre\u00e7o de acesso de US$ 900 por tratamento, em um escopo de 91 pa\u00edses de baixa e m\u00e9dia renda, cobrindo quase 100 milh\u00f5es de pessoas, mas excluindo 49 milh\u00f5es em pa\u00edses de renda m\u00e9dia (ver&nbsp;aqui&nbsp;e&nbsp;aqui). Essa exclus\u00e3o alcan\u00e7ou o Brasil, onde foi estabelecida uma negocia\u00e7\u00e3o bilateral, trazendo o pre\u00e7o para cerca de US$ 6 mil por tratamento. Como as reivindica\u00e7\u00f5es de patentes da Gilead estavam em avalia\u00e7\u00e3o no INPI, escrit\u00f3rio de patentes no Brasil, um acordo de coopera\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica envolvendo a Fiocruz e um cons\u00f3rcio de empresas privadas nacionais desenvolveu a vers\u00e3o gen\u00e9rica do sofosbuvir. No entanto, as demandas judiciais da Gilead bloquearam a possibilidade de que essa vers\u00e3o mais barata e bioequivalente abastecesse o sistema nacional de sa\u00fade (SUS) (ver&nbsp;aqui). Atualmente, o Brasil enfrenta o dilema de ter ou n\u00e3o acesso a um dos medicamentos em potencial que podem ser utilizados no tratamento do Covid-19, o Remdesivir da Gilead, um dos produtos submetidos a v\u00e1rios ensaios, incluindo o&nbsp;Solidarity Trial&nbsp;da OMS. O Remdesivir acaba de receber a Autoriza\u00e7\u00e3o de Uso Emergencial pelo FDA dos EUA para o tratamento da Covid-19, permitindo um uso mais amplo no tratamento de pacientes hospitalizados. Essa autoriza\u00e7\u00e3o, com base na gravidade da doen\u00e7a dos pacientes, foi&nbsp;anunciada pela Gilead&nbsp;em 1\u00ba de maio de 2020. Considerando que a Gilead est\u00e1 registrando patentes de Remdesivir em quase 70 pa\u00edses para garantir o monop\u00f3lio, eles acabaram de anunciar que assinaram o que chamam de \u201cacordos de licenciamento volunt\u00e1rio n\u00e3o exclusivos, com cinco fabricantes de medicamentos gen\u00e9ricos baseados na \u00cdndia e no Paquist\u00e3o, para expandir ainda mais o suprimento de Remdsivir\u201d. A Cipla Ltd., Ferzsons Laboratories, H\u00e9tero Labs Ltd., Jubilant Lifesciences e Mylan est\u00e3o autorizadas a fabricar Remdsivir para distribui\u00e7\u00e3o em 127 pa\u00edses com um escopo geogr\u00e1fico definido pela Gilead, principalmente de renda baixa e m\u00e9dio-baixa e estabelecendo seus pr\u00f3prios pre\u00e7os.&nbsp;Como previmos em nosso&nbsp;artigo recente, j\u00e1 mencionado, a menos que outras medidas sejam tomadas \u2013 caso de pa\u00edses como Canad\u00e1, Alemanha, Israel, Chile, Peru e Equador \u2013, o Brasil pode ficar preso na armadilha da Gilead de exclus\u00e3o do monop\u00f3lio. Com essa vis\u00e3o, um grupo suprapartid\u00e1rio de deputados submeteu um projeto de lei ao Congresso (PL 1462\/2020), alterando a atual Lei da Propriedade Industrial; o objetivo \u00e9 propor licen\u00e7as compuls\u00f3rias autom\u00e1ticas para tecnologias relacionadas ao Covid-19, justificadas pela declara\u00e7\u00e3o nacional e\/ou global de emerg\u00eancia de sa\u00fade devido \u00e0 pandemia. Atualmente, o Brasil enfrenta o dilema de ter ou n\u00e3o acesso a um dos medicamentos em potencial que podem ser utilizados no tratamento do Covid-19, o Remdesivir da Gilead Pareceria que, no interesse de garantir o acesso e salvar vidas, seria naturalmente esperado discutir, aprovar e implementar essa proposta, apoiada pelo Conselho Nacional de Sa\u00fade e recebendo forte apoio internacional. No entanto, ficamos chocados ao ler as rea\u00e7\u00f5es que se seguiram \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o do projeto de lei. A Interfarma, representa\u00e7\u00e3o corporativa de empresas farmac\u00eauticas multinacionais, reagiu listando os benef\u00edcios do arcabou\u00e7o legal atual da propriedade intelectual no Brasil, promovendo a inova\u00e7\u00e3o e garantindo benef\u00edcios legais em diferentes segmentos industriais (ver&nbsp;aqui). Mencionando a alega\u00e7\u00e3o da IFPMA [Facts and Figures 2017] de que cada novo produto inovador no mercado corresponde ao investimento de um bilh\u00e3o de d\u00f3lares, 6 mil tentativas, 400 pesquisadores e uma m\u00e9dia de dez anos, eles exortam a necessidade de proteger e incentivar a ind\u00fastria farmac\u00eautica para garantir o desenvolvimento de produtos e o bem-estar das pessoas. O posicionamento termina com a chamada para n\u00e3o enfraquecer o sistema da propriedade industrial e, portanto, n\u00e3o concordando com a proposta inclu\u00edda no projeto de lei. Nada estranho, vindo deles. A ABPI [Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Propriedade Intelectual] veio com&nbsp;documento na mesma linha, concluindo que o projeto de lei, assim como os que o originaram, desconsidera a legisla\u00e7\u00e3o vigente e os acordos internacionais dos quais o Brasil \u00e9 signat\u00e1rio, trazendo tamb\u00e9m inseguran\u00e7a. Esse artigo tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma surpresa. Pareceria que, no interesse de garantir o acesso ao Remdesivir e salvar vidas, seria naturalmente esperado discutir, aprovar e implementar a proposta do PL 1462\/2020, apoiado&nbsp;pelo Conselho Nacional de Sa\u00fade e recebendo forte apoio internacional.&nbsp;No entanto, ficamos chocados ao ler as rea\u00e7\u00f5es que se seguiram \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o do projeto de lei Por outro lado, uma nota t\u00e9cnica da Procuradoria Federal dos Direitos do Cidad\u00e3o analisa o Projeto de Lei (PL 1462\/2020), confronta os direitos individuais versus direitos coletivos, discute o Acordo Trips da OMC e os monop\u00f3lios, a Declara\u00e7\u00e3o de Doha sobre o Acordo Trips e a sa\u00fade p\u00fablica, concluindo que, sem lugar a d\u00favidas, o PL 1462\/2020 est\u00e1 em absoluta conformidade com nossa Constitui\u00e7\u00e3o Federal, n\u00e3o apresenta disfun\u00e7\u00e3o com nossa atual Lei de Propriedade Industrial e est\u00e1 em conformidade com quest\u00f5es internacionais relacionadas a direitos de propriedade intelectual e suas intera\u00e7\u00f5es com a sa\u00fade p\u00fablica (ver&nbsp;aqui). 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